Portugal Corner

Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005

ILUMINAÇÃO PÚBLICA

Se houvesse mais dez ou vinte pirilampos como este
Na lusa terra que gosta tanto de comer como de falar,
Podia haver fomes, podia haver males e muita peste
Mas noites negras – tá quieto!, só as teriamos de luar

CÚMULOS E MÁXIMAS

Não há nada mais triste que chorar com razão
Nem nada mais alegre que rir ao ponto de chorar
Nem nada mais perto da morte que um caixão

Nem nada mais urgente que a vontade de obrar

USO E ABUSO DO AR

Ainda ensonado, abro a porta e deixo entrar o ar.
Encho o pulmão da esquerda e deixo o direito falar.
Olho as terras dos outros que ainda me falta lavrar
E penso nas voltinhas dadas nos tempos de Salazar

E depois olho o sol que parece querer rebentar,
E ouço um cão ao longe que não pára de ladrar
E minha mulher na cozinha, afanosa a dar e dar
E o cacarejo de galinhas em sessão parlamentar

E enquanto lá dentro ela usa sais de queimar,
Esta minha mioleira não quer parar de pensar
Na vida desgraçada que agora levo a foçar
E na outra cem vezes pior que levei a sonhar

E lembro filmes antigos que não paro de rodar,
De guardas republicanos em alentejos de ceifar
E de obras-primas a preto em paredes de gritar
Morras e vivas parecidos ou iguais no paladar

E vejo as caldeiradas, as eleições de não votar
E os manifestos, protestos com bandas de tocar
Palavras secretas de padres do avesso a enganar
O pobre não lido e o rico ocupado com roubar

E já sentado no poial que o cú me está a esfriar
E o sol já bem alto a dizer-me para não chorar,
Oiço a voz da Fernanda toda irritada a bradar:
“Óh menino, então hoje não se vai trabalhar
?”