Portugal Corner

Sexta-feira, Janeiro 28, 2005

OLARILA!, SENHOR DOUTOR

Explicação à Catarina, no BdE (Rev.).
Apraz-me saber que és mulher prática preparada para dar as tuas voltas e resolveres os teus problemas de mãe. Mas não podes descurar essa “dependência” que tem vindo a acentuar-se, em relação aos médicos. Há as vacinas, as papinhas especiais, as alergias, as doencinhas congénitas, etc. etc. O amor maternal é, claro, mais importante que o resto. Mas, como sabes, quando um bebé dá um espirro ou dois a tendência das mães é correrem sobressaltadas ao sr. doutor. Não que eu tenha nada contra eles no aspecto religioso (?) porque há pessoas profissionalmente competentes e de bom coração em todas as profissões. Além disso, os médicos não seriam tanto o que são se a indústria farmacêutica não fosse o que é. Mas repara na minha experiência pessoal. Ai por volta de 1971, em Portugal, três deles quase que mataram a única filha que tenho com doses repetidas de anti-bióticos diferentes para curar uma “papeira” que no fim verificou-se ser um caso de coli bacilo. O quarto médico, que descobriu a doença, disse que não sabia se a poderia salvar depois de olhar aos resultados duma análise ao sangue. Mas tivemos sorte. Aí uns dois anos depois disso, em Londres, a minha mulher teve uma gravidez tubária. Caíu-me um dia nos braços. Levei-a ao hospital de carro e foi forçada a caminhar mais de cem metros para uma sala de observações e vinte minutos depois disso estava a ser operada de urgência, senão morria. Mesmo assim, dois anos depois engravidou, mas teve hemorragias no princípio da gravidez. O médico que a viu diagnosticou aborto expontâneo e passou-lhe um papelinho para se apresentar na manhã seguinte no hospital, para “limpeza”. O feto condenado por esse médico ignorante está à espera dum herdeiro em Junho que vem. Quando este meu filho tinha dois anos e meio, começou com dificuldades respiratórias e levámo-lo imediatamente a um “teaching hospital” em Londres. Diagnóstico: constipaçãozinha. Remédio: xarope. Nessa mesmo dia, de nossa iniciativa porque preocupados, fomos a outro hospital e foi imediatamente posto a soro de hidrocortizona com a informação de que se não tivéssemos lá ido teria morrido nessa noite. Asma. Depois andou vários anos a tomar um veneno chamado Intal, cortesia dos médicos que comem tudo o que a BigPharma lhes põe nas mãos. Nice people. Mas há mais. Ai por volta de 1987, comecei com uma dor no joelho. Diagnóstico: menisco. Seguido de operação desnecessária porque ainda fiquei pior. Uma visita a uma biblioteca médica e a leitura apressada de alguns livros sobre problemas de joelhos prepararam-me para eu próprio diagnosticar a doença (reflex symphatetic distrophy) que apresentei ao chefe de fila do departamento de ortopedia que, quinze dias depois se sentiu com coragem para me dizer: “You are right Mr, Filipe.” Este senhor era, na altura, considerado a eminência nacional de problemas do joelho. E fui eu também que me mediquei. Seguiu-se um caso de tribunal para me forçar a pagar a operação desnecessária e ganhei. Mais recentemente, um idiota de urologia achou-se com coragem para me dizer que eu tinha uma doença terrivel na bexiga, baseando-se apenas em resultados preliminares dum “ultra-som”. Não o mandei à trampa nessa altura, mas, depois de alguma reflexão, escrevi um carta aos serviços de saúde no dia seguinte a chamá-lo de labrego. Espero não vir a arrepender-me disso. Ainda mais recentemente - e aqui é que há razão para se falar de fascismo da medicina - a minha filha foi retirada da lista duma clínica por ter, julgo, recusado que a minha neta mais nova fosse submetida a quaisquer tipos de vacina. Mas esta é uma história ainda mais longa. E se um dia te cruzares comigo numa praia algarvia e veres sinais de cesariana na minha barriga, já sabes que foram médicos que a fizeram há trinta anos para meterem a cabeça e ver o que era que andava a dar-me dores de barriga e febres de 41 graus. Apendicite crónica. Olarila!

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

ABORTO PROGRESSIVO

Paulatinamente, o LP vai revelando-se herdeiro adequado do espólio polémico deixado pelo testador LR. Desta vez, há aborto com fartura que vem antes duma sugestão de entrée de parcialidade na condenação de coisas que tiveram a ver com sexo e escândalo, e lá mais para a frente, talvez amanhã ou depois, virá, aposto, outra coisa qualquer, para desenjoar.

Essa de criticar americanos e poupar europeus é de partir a moca. Quer dizer, é mas só quando nunca ouvimos falar de gringos que se andam a queixar de que os USA são um porta-aviões a serviço da Europa. E também me faz lembrar com muita tristeza uma história que corria em Paris nos anos sessenta sobre um membro do comité central do único partido de esquerda português na altura, que mandava um camarada menos responsável ir fazer recados a Marselha, e depois, muito conspirativamente, ia deitar-se com a mulher deliciosa que o outro tinha deixado na cama. Estranho. Mas histórias como esta há muitas, envolvendo a esquerda, a direita e especialmente o cobiçado centro..

Mas o que é que quase me ia fazendo irar atrás da banda numa desbunda à volta dum desbate? Foi por ver que há gente demais a coçar o pelo ao pobre Louçã, um dirigente do BE que teve a bravura de não respeitar as agendas, de ser sincero, de não obedecer aos sussurros que o aconselham a olhar pelo tacho. Um homem de esquerda politicamente incorrecto, para variar. E, já agora, também porque é contra os meus princípios esconder uma opinião que pode ajudar alguém desmoralizado, apesar de que sei que ele sabe defender-se.

Assim, aquilo que tenho a dizer aos detractores que andam por aí a pensar que o Louçã disse o que não deveria é isto: o favorecimento do aborto, como instrumento de mobilização dos ânimos políticos em novas batalhas de fingir, é mais ataque á Igreja que intenção progressista e sincera de defender a Mulher contra ideias retrógradas. Nem sequer me vou dar ao trabalho de admitir que posso estar enganado. É pena que a infantaria da fé marxiana, concentrada, diluida ou reformada, não veja isso. Já era assim no tempo de Salazar - o tal que tinha um Cerejeira amigo e enfrentava uma oposição que nunca revelou o nome do seu próprio cerejeira - e será assim nos anos que restam a esta senhora pluralista que ainda não entrou no climactério. E queria dizer também a esses senhores detractores que há, não tenho dúvida, mais reaccionarismo - não necessàriamente do tipo que consta nos catecismos - entre os generais das ideias do aborto descontrolado do que nos seus opositores, muito embora os motivos destes se devam a crenças religiosas que não nos convencem.

Um dos grande defeitos da esquerda que quer salvar nação e paróquia das garras do obscurantismo anti-mulher é o de pensarem que a “direita”, normalmente de braço dado à Igreja, está sempre enganada nesta área. Verdade, o direito ao aborto pode ser defendido por mulheres que não querem ter preocupações quando descem ligas ou saias, porque confundem isso com liberdades que às vezes duram menos de cinco minutos. Mas, a longo prazo, há um preço a pagar pela Mulher em tudo isto: o preço dessa mulher se deixar levar insconscientemente no bailarico da modernidade tão necessário ao plano daqueles que receiam um mundo onde cada vez há mais gente. Se alguém duvida disto, dê uma olhadela à antiga União Soviética cheia de decretos liberadores da mulher, e pergunte-se se não é muito estranho que liberdades como essa do aborto tenham podido coexistir com os gulagos que toda a gente inclui com prazer em ataques demolidores ao comunismo agora “desacreditado”.