Foi na Moita que perdi os três pela segunda vez...
Com as putas pobres que vinham de Lisboa fazer uns cobres..
Umas vezes era sob luas ou à sombra de fundeadas faluas...
Outras pelo meio da uva que pedia a Deus que não houvesse chuva..
Tenho a certeza que se ainda vivesse na ribeirinha Sor d`Ovelhas (encriptação anagramática dos meus tempos de andar a pastar cabras), também eu pertenceria ao grande movimento para restaurar os direitos dessa terra em relação, ou contra, a sua “boring” vizinha – a Moita aborrecida e aborrecedora que, costumava dizer-se aí há uns cinquenta anos, só ganhava alma e colorido por altura das festas da Nossa Senhora do Rosário ou quando se falava das peripécias do pároco João desses tempos que tinha a fama de dar lições privadas de fervor religioso às mulheres dos industriais corticeiros. Felizmente, ou infelizmente, as coisas vieram a passar-se de maneira diferente e hoje encontro-me em “terras de Sua majestade”, como diz o outro, talvez a viver os mesmos problemas de alma dos alhosvedrenses, mas em ponto grande, pela simples razão de me encontrar mais perto dos epicentros dos terramotos da intriga política. E digo “de alma” porque já ultrapassei a fase masturbatória que leva gente nova ou mais nova, tudo malta mais ou menos bem intencionada e com a cabeça quase a rebentar com certezas, a ir em grupos, a criá-los, inchá-los ou a aderir a um dos muitos partidos “históricos” constantes dos cardápios rançosos do engano político.
Mas esta não-militância da minha parte não reprime inteiramente a vontade de querer dar a um imaginário e aguerrido galo blogador deixado pelo conde de Barcelos para liderar a luta antimoiteira um conselho de pessoa que vê o mundo de maneira diferente.
E esse conselho é: com esta grande grande preocupação de redesenhar o mapa político-administrativo dessa àrea à beiratejo em mente, escolhe uma noite calma quando já toda a gente estiver a dormir. Bebe um copo de água fresca ou natural da melhor que tiveres em casa, refastela-te numa cadeira de braços, e fixa um ponto indefinido no teto da tua sala-de-estar. Se fumares, um cigarro poderá ajudar-te a ganhar o tipo de concentração que necessitas para tomares decisões importantes ou remendares maneiras de ver.
Dedica pelo menos quinze minutos a esta operação de “limpeza” espiritual. Esquece-te de tudo aquilo que no teu blog é superficial e destinado a encher espaço. Primeiro certifica-te de que a mudança que procuras ou preconizas irá corresponder a um progresso realmente necessário ou é apenas um pretexto para desopilares as raivas que tens armazenadas pelas muitas horas que tiveste de esperar em bichas na secção de finanças para tratares de assuntos de cinco minutos e, depois, se decidires que não estás a brincar, se progresso equivale a mudança, e, quando optares por aquilo que te parece justo, compara isso tudo com os montes de mudanças que nunca trouxeram progressos genuínos e repara que nunca há falta de gente sempre pronta a empurrar-nos para novos cornos de touro que resultarão em progressos que não virão mudar nada. Pensa nos prós e nos contras e nos ganhos e nas perdas e em termos de sabermos o que é que realmente andamos a fazer no uso da verdadeira razão. Pensa nas inimizades e contra-amizades que irão ser geradas entre pessoas que em princípio nada têm umas contras as outras. Pensa em todas as coisas boas e más que poderão resultar quando, finalmente, te convenceres e convenceres os teus conterrâneos da necessidade de restaurar certos direitos que foram abafados ou espezinhados pela História da intriga municipal com cunhas em Lisboa. Se usares essa cabeça, que em princípio estará fria na noite silenciosa cortada de vez em quando pelos gasganetes ruidosos de motorizadas, irás reparar que neste mundo em que Alhos Vedros é um pico e Portugal um pontinho há sempre alguém a puxar o cordel que nos faz mover como bonecos necessários no tablado dos antagonismos necessários à distracção. Há gente para quem o desamor é comida vital. Há gente que gosta de nos ver a ler Histórias aos quadradinhos. Há gente que engorda com os conflitos entre terceiros. Chama-se controlo. Chama-se maquiavelismo. Chama-se intriga.
Repara, por exemplo, na contradição, que no fim acaba por ser casamento como acontece na politica do engano, entre “História” e “Progresso”. Vai-se aos sebosos pergaminhos da História colher provas (neste caso, a muito antiga importância da freguesia de S. Lourenço onde a realeza antiga vinha inundar os pulmões com os ares puros do Rio dos Paus e da Quinta dos Lacraus), para combater aquilo que ela própria assinalou como Progresso na altura, o que iliba os pobres moiteiros do crime de nos terem roubado alguma coisa. Isto implica que tanto a Historia como os solavancos de progresso fingido de que é feita pouco têm a ver com contabilidades ou movimentos nos livros da justiça. O que têm a ver é com com os jogos de interesses entre cavaleiros locais predominantes na época. História é o resumo, incompleto e falso muitas vezes, de coisas que se passaram de acordo com os desejos de classes ou grupos de influência – tão cuidadosamente cobertos que raramente transparecem nas descrições dos relatores - e o Progresso é aquilo que é definido como um salto em frente pelos filósofos da política mas que no fundo não passa de pura evolução ou adaptação muito necessária para a continuação de planos de dominação permanente.
Portanto, Alhos Vedros ao poder, sim, mas com calma e sempre atentos à verdade de que os calhamaços da História estão cheios de mentiras!!
E agora, alargando um pouco a intenção destas linhas, deixa-me, à guisa de opinião de muita boa gente, largar uma de fazer sorrir os saloios com cursos de sociologia baseados na História do engano: os partidos políticos mais fortes e os únicos que sempre contaram foram os que foram criados, por portas e travessas e com muita manha, pelas religiões velhas. E quanto mais velhas, melhores, porque a experiência conta muito. Foram essas raparigas, quase sempre vestidas de preto e muito barbudas, que meterem os partidos nas cabeças das pessoas à martelada ou com ajuda de óleos escorregadios. O resto são tretas. Mas, infelizmente, nada disso nos tem impedido de andar a fingir que sabemos distinguir entre liberais de esquerda, radicalistas de direita e centros de pernas para o ar.
Os partidos e os homens da chamada burguesia - que foi um nome que se inventou para etiquetar històricamente um novo estilo de roubar e explorar introduzido pela Revolução Francesa - gente de propriedade e meios dita “progressista” no seu tempo porque condenava absolutismos nos dias em que estava bem disposta, não podiam continuar à cabeçada uns com os outros porque afinal pouco havia que os dividisse, alem de os cansar desne-cessàriamente. Havia, portanto, urgência em enfeitar os parlamentos com “verdadeiros” representantes da ralé e das classes trabalhadoras. Para equilíbrio, também. Por isso, inventaram-se partidos ou ligas ditas de defesa dos interesses da classe operária, invariavelmente com intelectuais às suas cabeças. E surgiram, entre outros e com muito barulho histórico, o socialismo e o marxismo com análises “científicas” e promessas de metas finais de paradisiacos comunismos – uma coisa que nunca ninguem tinha prometido antes e que chocou agradavelmente as massas exploradasos que nunca suspeitaram, nem suspeitam, coitadas, de andarem a ser instrumentos de diabos que nunca se deram bem com Deus. Dizer que a “tomada de consciência do “proletariado” aconteceu porque a classe trabalhadora despertou um dia com fortes pressões temporais e dores de barriga económicas é abusar da inocência. Mais perto da verdade é acreditar que os embates violentos entre a esquerda e a direita e as divergências antigas nos seios de cada uma são totalmente fabricados por braços especializados de religiões ou cultos que têm segredos que não querem revelar a ninguem. Se fosse possível examinar estas coisas em laboratório, ver-se-ia que em soluções críticas, as partes tenderiam a atrair-se forçando a expulsão dum gás verde de intriga.
Infelizmente, poucos estão interessados em pôr em causa a viabilidade dos partidos que compõem a grande orquestra do dogma secular e da moralidade milenária escolhida com o dedo da conveniência. Enquanto vamos ouvindo sem cessar os estalidos incómodos das castanhas científicas que andaram a entreter-nos durante mais anos que os necessários, de Newton a Darwin, passando por Pasteur e Einstein, as abantesmas da política democrática de esquerda, em contrapartida, ainda continuam agarradas, por inocência ou manha deliberada, a principios que já passaram à tal História ou a outros cuidadosamente renovados mas de igual modo condenados a envelhecer sem produzirem nada. E não produzirão pelo motivo simples de que não há intenção em avançar com algo que poderá pôr fim ao baile de máscaras dos partidos independentes..
Na opinião deste bisneto de caramelos, quando se anda à bulha com as outras freguesias não é apenas para matar o aborrecimento - anda-se também a brincar às distracções deste mundo....