Portugal Corner

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

ABORTO PROGRESSIVO

Paulatinamente, o LP vai revelando-se herdeiro adequado do espólio polémico deixado pelo testador LR. Desta vez, há aborto com fartura que vem antes duma sugestão de entrée de parcialidade na condenação de coisas que tiveram a ver com sexo e escândalo, e lá mais para a frente, talvez amanhã ou depois, virá, aposto, outra coisa qualquer, para desenjoar.

Essa de criticar americanos e poupar europeus é de partir a moca. Quer dizer, é mas só quando nunca ouvimos falar de gringos que se andam a queixar de que os USA são um porta-aviões a serviço da Europa. E também me faz lembrar com muita tristeza uma história que corria em Paris nos anos sessenta sobre um membro do comité central do único partido de esquerda português na altura, que mandava um camarada menos responsável ir fazer recados a Marselha, e depois, muito conspirativamente, ia deitar-se com a mulher deliciosa que o outro tinha deixado na cama. Estranho. Mas histórias como esta há muitas, envolvendo a esquerda, a direita e especialmente o cobiçado centro..

Mas o que é que quase me ia fazendo irar atrás da banda numa desbunda à volta dum desbate? Foi por ver que há gente demais a coçar o pelo ao pobre Louçã, um dirigente do BE que teve a bravura de não respeitar as agendas, de ser sincero, de não obedecer aos sussurros que o aconselham a olhar pelo tacho. Um homem de esquerda politicamente incorrecto, para variar. E, já agora, também porque é contra os meus princípios esconder uma opinião que pode ajudar alguém desmoralizado, apesar de que sei que ele sabe defender-se.

Assim, aquilo que tenho a dizer aos detractores que andam por aí a pensar que o Louçã disse o que não deveria é isto: o favorecimento do aborto, como instrumento de mobilização dos ânimos políticos em novas batalhas de fingir, é mais ataque á Igreja que intenção progressista e sincera de defender a Mulher contra ideias retrógradas. Nem sequer me vou dar ao trabalho de admitir que posso estar enganado. É pena que a infantaria da fé marxiana, concentrada, diluida ou reformada, não veja isso. Já era assim no tempo de Salazar - o tal que tinha um Cerejeira amigo e enfrentava uma oposição que nunca revelou o nome do seu próprio cerejeira - e será assim nos anos que restam a esta senhora pluralista que ainda não entrou no climactério. E queria dizer também a esses senhores detractores que há, não tenho dúvida, mais reaccionarismo - não necessàriamente do tipo que consta nos catecismos - entre os generais das ideias do aborto descontrolado do que nos seus opositores, muito embora os motivos destes se devam a crenças religiosas que não nos convencem.

Um dos grande defeitos da esquerda que quer salvar nação e paróquia das garras do obscurantismo anti-mulher é o de pensarem que a “direita”, normalmente de braço dado à Igreja, está sempre enganada nesta área. Verdade, o direito ao aborto pode ser defendido por mulheres que não querem ter preocupações quando descem ligas ou saias, porque confundem isso com liberdades que às vezes duram menos de cinco minutos. Mas, a longo prazo, há um preço a pagar pela Mulher em tudo isto: o preço dessa mulher se deixar levar insconscientemente no bailarico da modernidade tão necessário ao plano daqueles que receiam um mundo onde cada vez há mais gente. Se alguém duvida disto, dê uma olhadela à antiga União Soviética cheia de decretos liberadores da mulher, e pergunte-se se não é muito estranho que liberdades como essa do aborto tenham podido coexistir com os gulagos que toda a gente inclui com prazer em ataques demolidores ao comunismo agora “desacreditado”.