Haverá por aí, no clube português do não-me-chateies-com-merdas-de-política, alguém que esteja disposto a ler coisas tristes nestes tempos de muita distracção e rara introspecção, de olhares perdidos num ponto indefinido, por vezes pensando no menino Jesus que parece não gostar de lembrar-se de gente como nós?
Se houver, que se apronte. Talvez até venha achar graça àquilo que deveria ser motivo forte para tristezas. Mesmo em períodos de grande consternação ou desencorajamento é sempre possível sorrir, ou mais que isso, a meio ou no fim do desabafo que vem finalmente devolver-nos as forças para enfrentarmos as desgraças deste mundo ou períodos infelizes nas nossas vidas. Frequentemente, ri quem desabafa e acaba também por rir quem aconselha a desabafar.
Já que toda a gente tem de viver em Democracia até vir a mulher da fava rica, há, parece-me, um princípio fundamental que não deve ser ignorado se quizermos ser ajudados a compreender com olhos de gente situações politicas que parecem descomplicadas mas não são. E esse principio é: não confiar inteiramente em ninguém que se esconda por detrás de siglas, seja qual for a promessa feita pelo lider ou seu representante ou o ardor contido na bojarda favorita do discurso de pretensa elucidação. Eu sei isso porque também já pertenci a vários partidos de ludovinas – ludovinas que agora examino com uma certa isenção sentado na minha cadeira de independência, munido do meu livro de notas sobre as contradições notadas ao longo de muitos anos.
Notem bem. Em política, a fantasia é mãe da mentira. Faz viagens longas que começam com fundações e inaugurações e é levada num processo obrigatório e muitas vezes doloroso que a institui como arma importante do arsenal do partido. Começa como invençâo pura de fundadores e vai gradualmente perdendo essa desonrosa característica à medida que vai sendo repetida pelos militantes de base que vão crescendo. Muitas dessas invenções passam a dogmas por força de hábito e às vezes até são traduzidas para latim para ornamentarem escudos e estandartes. Mas no dia a dia da farra que culmina em eleições periódicas, invenções têm um nome de guerra, ou de campanha: são chamadas mentiras, por vezes petas ou descuidos sem importância colmatáveis em congressos anuais. As mentiras também podem ser prato favorito da inocência, depende da boca que as profere. Recicláveis porque de fácil detecção, as mentiras são, por norma, disparadas exactamente à mesma velocidade das verdades mas num número muito maior. Destrinçar entre umas e outras é trabalho para aqueles que procuram a verdade - difícil de determinar porque se dilui como gas rarefeito nas salas e corredores das intrigas partidárias e governamentais. Há, por isso, necessidade de ecletismo da nossa parte, porque a boca dada à soltura de mentiras também diz uma verdade de vez em quando. Nem a confusão poderia ser estabelecida doutra forma.
A pessoa verdadeiramente independente mas condenada a ter de viver em democracia melhor faria em aprender uma coisa ou duas em matéria de defesa contra mentiras. E uma que me parece importante é a de sermos capazes de ver e compreender à nossa maneira, de desconfiar, de conectar os fios da meada, reforçando tudo isso com o desejo de não nos deixarmos levar pela confusão deliberadamente espalhada pelos homenzinhos que há muitos anos nos andam a enfiar o garruço, fazendo disso uma cruzada de fé e uma profissão bem paga. Em política, muitas vezes, aquilo que a dado ponto se apresenta aos nossos olhos como uma divergência clara pode, noutras circunstâncias ou num tempo diferente, ou se olharmos com mais cuidado dum ângulo diferente, transformar-se numa convergência que iludiu as nossas capacidades de detecção e os nosso raciocínios. Tudo isto seria mais fácil se os homenzinhos que puxam os cordelinhos nos permitissem ter acesso a todas as interepretações ou descrições da verdade. Um exemplo de censura dobrada: o chamado “testamento” de Lenine sugeria Trotsky como seu sucessor. Nem Salazar, porque era anti-comunista, nem Álvaro Cunhal, que era Stalinista, estavam interessados que os seus amigos lessem isso. Portanto, nos tempos de Salazar tinhamos que ir a França, por exemplo, para nos inteirarmos, porque a quem mandava nesse país tanto se lhe dava ter um PC com 5 milhões como dez mini PCs com quinhentos mil. Há necessidade de manter um certo equilibrio. Quando as coisas estão a ficar Esquerdas, os centros encostam-se à Direita e vice-versa. Atrito e divisão permanente para reinar.
Mas será que a proliferação de partidos é contrária aos interesses daqueles que verdadeiramente nos governam? Acho que não. Olhem para Itália das dezenas de governos depois da guerra. Só quem anda a dormir (a maioria, infelizmente) é que ainda não reparou que há uma tendência inegável, unânime, entre os governos de todas as cores politicas, esquerda e direita, ou centro, moderadas ou totalitárias, para desindividualizar o indivíduo, para lhe retirar independência e poder de pensar por si sobre a realidade deste mundo. Os poderes instituídos não só não querem administrar este mundo – querem também roubar-nos o direito que temos a interpretá-lo sem a ajuda de filosofias partidárias de acarneiramento das multidões. E têm trabalhado vigorosamente para isso no passado.
Não é recente a vontade de arregimentar o homem em grupos manietáveis, especialidades, profissões, sindicatos, partidos, classes, religiões, nações, e pactos e acordos entre nações. Tudo instrumentos de “comprovada progressão histórica” etiquetados e emprateleirados em tabelas e listas de evoluções de altos e baixos, arrecuas e avanços, saltos mortais, coisas chamadas História para manter respeito e fazer arrotar com satisfação os professores da especialidade. Infelizmente, muito pouca dessa gente erudita com a função óbviamente política de nos ensinar reparou que o Homem - unidade única e imprescindível para a explicação da causa e fim deste planeta e da Humanidade - foi transformado deliberadamente numa peça social que o aliena em relação à lei universal que o rege, independente das mariquices tramadas por filósofos e políticos do engano. Lei que no fundo se está marimbando para a intriga da política e tudo o que a ela se cola como visgo. Um dia, com ou sem ajuda dos degrauzinhos da História, todos - não apenas os fraldiqueiros da arregimentação do homem inconsciente em partidos ou grupos - irão compenetrar-se disso.
São poucos ainda os que se debruçam sobre o enigma de que a Humanidade de hoje é mais numerosa do que a Humanidade que desapareceu, tudo acentuado pelo incremento cadenciado de 80 milhões por ano. Apesar dum desejo manifesto de exterminação mascarado de serviço internacional de matar a fome e dar saúde, os vivos são sempre mais que os mortos de sempre. Um dia, os bafos e as respirações ofegantes dos bilhões de gente desnecessária irão levantar as bainhas das saias e batinas por debaixo das mesas de mármore dos concílios da mentira. Brisas quentes de amadurecer quantidades enormes de partes privadas...
Mas não é fácil apercebermo-nos deste maquinismo infernal que vai remendando as brechas da ignorância. Isto é: não éfácil apercebermo-nos do muito que há em jogo no meio desta confusão politica que nos distrai, com ideias de amálgama e aglutinação, provindas de inúmeros aliados nos vários campos dos intelectualismos distraidores e das ciências que parecem interessadas em contar-nos tudo. Felizmente que ainda nos resta a intuição que pode ajudar-nos a compreender muita coisa. E a intuição diz-nos que a premeditada aglutinação (das partes dispersas num todo homogênio para manipulação eficiente por cúpulas seleccionadas) não é natural porque tem envolvido e envolve a utilização de violências camufladas. E de várias maneiras. Basta olhar à nossa volta.
Os partidos políticos afirmam-se diferentes, mas a mentalidade democrática é uma e única - manipulável, uniforme e respeitosa da mãe que a concebeu. No cantar eleitoral, nada fere o ouvido, há unissonância frequente entre os falsetos esganiçados dos antagonismos políticos. No cara-a-cara da deputação nacional nota-se, se olharmos bem, o cordão umbilical bastante grosso que transforma o parlamento num templo de troca de opiniões com bar e cantina. No ler e escrever sobre a democracia, há censura imposta pelos governos, ou auto-censura de directores de jornais com juízo a mais e jornalistas bem avisados. No ver e no ouvir, há a consulta regular ao écran do televisor que usa a ficção para tornar a realidade mais digerível; na saúde física e mental há o conselho do médico robotizado que não faz perguntas porque não quer aprender ou porquer quer servir alguém que não é o doente e há o seguir à risca as instruções do farmacêutico. Na vida do militante político, que é uma espécie de cidadão miliciano movido por pretensões ou dedicações, há as palavras de ordem do partido a mandá-los dar cabeçadas nas paredes, de acordo com as normas prescritas nos livros antigos de pesadelos.
Quanto ao resto, a promessa de que um dia a democracia vai entrar nos eixos é utilizada por uns e por outros, com o à-vontade permitido pela lei mas sem prazos de garantia. Se bem que para pessoas como eu a pluralidade política não passa duma manta encobridora dum certo “senhor” que não gosta de mostrar o sesso, concordo que não é essa a sensação que se tem quando passamos a mão pela pele enrugada da Democracia. Persista-se no entanto em passar a mão mais vezes, com a devida curiosidade e cuidado investigativos, e note-se a transformação das pregas da pluralidade numa intumescência luzidia e assustadora de unidade partidária.