Portugal Corner

Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

NATAL

Nasce Jesus.
Catrapuz!
Vem a Luz.
Na mangedoura
A palha é loura.
A cristípara ollha José
Com cara de ré,
Pedro aperta a mão
Trémula de João
E um judeu
Muito saduceu
Olha sereno
O nú Nazareno
E tem uma ideia
Da velha Galileia:
Fazer de Belem
Outra Jerusalém,
Dar continuação
À velha descrição
Da vida, do mundo
Muito profundo,
Ensinar Jesus a regra
Da arte da prega,
E das doutas vias
De que é Messias,
Escolher a dedo
Mais doze sem medo,
Criar muita ilusão
No mundo pagão,
Forçar Constantino
A engolir o pepino,
E escrever a história
Em letra irrisória
Nos livros e róis
De séculos depois.

NATAL - IDADE DE ACREDITAR

Consoar também é rimar. E esta noite vai haver muita consoada já desusada. Jesus nasceu há dois mil e tal anos, segundo nos contam certos manos, e os judeus que têm o mesmo Deus, mas mais velho e relho, pôem no alto da cabeça ou na testa que esta não é a sua festa. Os ateus, certos de serem espertos, assumem outros tons porque pensam que são bons, e usam os poderes locais e governamentais para expurgarem esta data religiosa da intencão facciosa que ofende os demais. Os presentes não irão ser só para doentes: serão para toda a gente que sente ou mente, e podem custar muito tintol, a maior parte deitado ao rol do Capital que ri do festival e beija o plástico fantástico dos juros futuros. Muita mãe ou avó ainda tenderá a massa da velha filhó que fritará no óleo doentio que mata o gentio que come e bebe mas não percebe que não há natais para os animais.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

MANTRA DO BLOGUE DESNECESSÁRIO...

Os blogues das palradoras doidas da terra seca de Portugal
Dizem coisas bonitas que raramente chocam ou fazem mal
E dizem outras agradáveis ao ouvido e à vaidade de soares
E também não dizem mal de certas marílias parlamentares
E falam tanto de comunismo com um tal desprezo nacional
Que o respeito que têm é só ao sobrolho negro do cunhal.
E dão uma ideia muita fugida da corrupção de certo mano
Que os faz espreitar por travessas e portas do quotidiano
E contam anedotas que parecem risos molhados de lambaz
Que enfeitam com fotografias coloridas de gajas de cartaz
E contam, contam, contam, largando nice xite de la merde
Que nunca os derrete ao ponto de rebuçado de raiva verde.
E a gente que se lixe com as cabeças cheias de confusão
A andar para aqui sem toscar uma nesga de vera precisão,
A ouvir e a ler esta malta que usa a boca como uma pistola
Que dá tiros de borracha tocados ao som da velha grafonola
Dando uma no cravo e outra na besta e quadrada ferradura
Que fala com saudade mal fingida desta e da outra ditadura.
Que gente é esta, jesus, que extrai coisas moles de jornais
De letras inglesas e francesas e doutras muito ocidentais?
Que gente é esta que anda a querer pretender com a lingua
Ser capaz de converter um governo de falta e de míngua?
Meu deus, tanto queijo lusitano bem cheiroso, tanto maltez
No luso forrobodó da contestação a querer ser três de vez!
Onde é que a gente vai parar com tanto espernicar à toa
Para provar que a democracia mora no centro de Lisboa?
Mandem-me o BDE que eu sei muito bem o que é que ele é
Ou a viela da alfamaria que também usa a lingua do burrié
Que tem um frontal que manda os tiros à laia de bar saloon
Ou das lotarias dos astronautas que o Bush manda à moon.
Digam depressa a esses parvinhos politicos da bloga lusa
Para parar de pensar que a mentira de antes já não se usa.
Roguem-lhes que não desorientem o nosso querido povo
Que ainda não sabe se foi a galinha primeiro ou se foi ovo.
Peçam ao bloguismo luso que pare de banhar-se no segredo
Das almas que enxotam sombras que ainda têm mais medo.


Terça-feira, Dezembro 21, 2004

CHAMAR NOMES COM AJUDA DE BARBARISMOS...

Mesmo nesta hora de mentiras e vida dissoluta
Com almas de enquadrar o coração no gesto frio
Ninguem gosta de ser chamado filho da poota
Depois de ser mandado para a poota que o pariu

Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

RÁDIO MOSCOVO NÃO FALA VERDADE...

Era tão bom que toda gente fosse permitida a contar a verdade de vez em quando, se a soubesse. Ou isso, ou aconselhada a usar a verdadeira razão, antes de abrir a boca para despejar mentiras solenes pescadas no mercado das repetiçôes que vão moldando alma, espírito e crença. Era tão bom que todos pudéssemos adivinhar os números que vão saindo no loto das ideias e das politicas que andam à roda todos os dias, com prémios cumulativos que um dia irão desabar no topo das nossas cabeças sonolentas quando já não houver remédio nenhum. Era tão bom haver mais um instrumento electrónico no cesto das invenções abasbacantes que fosse capaz de medir a sensatez dos nossos arrazoados, rectificar a justiça das nossas posições, os valores das nossos julgamentos definitivos no campo de todas as coisas importantes deste mundo. Era tão bom.

Tudo isso seria realmente bom mas, infelizmente, declara-se de caras, na sua simplicidade de coisa quotidiana que deveria ser exibida por direito e por todos, avesso aos interesses de uma certa outra gente, ou não-gente, menos numerosa, mais sabida, com calo histórico batido pelo fingimento que desnorteia e confunde a maior parte de nós - gentinha, gentalha, ralé, povo que só conta, quando conta, de quatro em quatro anos, que só canta em dias de festa quando não há nada de transcendente ou universal a festejar. Todo esse direito sonhado a não errarmos quando falamos ou escrevemos seria realmente bom. Mas tem sido, realmente e propositadamente, conservado afastado da realidade graças à inversão, alteração, viciação ou enredo que têm o desenho de nos impedir a discernir a verdade e submetê-la à prova dos nove, isto é, poder senti-la a banhar os nossos raciocínios em consonância de verificação com aqueles que foram ensinados a pensar erradamente como nós.

Tudo isso, esse sonho que seria tão bom e que envolve o uso irrestrito da verdade, sonho que resulta da necessidade de fugir a um pesadelo que nos oprime sem descanço mas que ainda não conseguiu reduzir-nos ao zero irremediável, seria coisa de fácil realização se não viesse contrariar o plano que, por força da história que não nos foi contada, não nos inclui como portadores das chaves que permitirão abrir as portas do problema da vida, que é o problema de termos a certeza que não andamos a ser levados por ninguém.

Há um zero enorme que ameaça engolir-nos para sempre. O homem, fracção diminuta num universo de bilhões de valores similares, precisa aglutinar-se e criar o espírito que se oponha ao caldo requentado do presente que sobrou de todas as refeições servidas no passado. A fase final da derrocada dos sentidos foi anunciada há poucos anos com banda ruidosa e discurso farto proclamando o acesso de loucos às alavancas de controlo do poder aparente.
Mais dramático que isto, só da pena dum Shakespear - se é que alguma vez existiu alguém no mundo da Literatura com esse (verdadeiro) nome.

DAS DUAS UMA...

Procurar o não-revelado,
Entre as repetidas ondas
Do mar censurado
Que se tem
A bem
Da chamada
Nação liberal,
É trabalho escusado
De enjoado capitão
Que treme
Ao leme
Do barco contestação,
Ou é...
O zé
A ir ao fundo
Sem saber
Quem manda
E anda
A f----
Este Mundo

Domingo, Dezembro 19, 2004

A DEMOCRACIA VÊ-SE GREGA...

Em politica, uma minoria organizada é uma maioria política” (Palavras atribuídas a Jess Jackson, homem da Maçonaria Americana, com um alcance que deve ter ultrapassado a intenção original).
O espírito da Democracia é uma ideia muito mais velha que o fervor religioso monoteista cristão, mas o poder de aliciamento e os propósitos são pràticamente os mesmos. Ambos apontam na direcção da disciplina, autoridade, e legalidade à volta de princípos ou crenças. O bom e o mau, o justo e o injusto, interpretados duma maneira longe de perfeita alem de tendenciosa, são conceitos basilares compartilhados com o mesmo entusiasmo. O direito num é chamado caridade no outro, e o que é mandamento num chama-se regulamento no outro. São autocarros com o mesmo destino por rotas diferentes.
A experência democrática de há 2.500 anos numa cidade grega pagã nem deu para aquecer em termos de tempo de História, se é que a História que nos contam corresponde exactamente àquilo que se passou. E se tudo foi realmente com se conta, a democracia clássica de Atenas aconteceu num tempo de ganâncias e guerras, de colonialismos primitivos, de paganismo, de esclavagismo, de cidadãos de primeira e de segunda e até de terceira e quarta. Um modelo fantástico para ser copiado. Exactamente como acontece nos tempos modernos, só que pior: a liga das cidadanias modernas vai de cidadãos de 300 euros ao mês a 50 mil. Ou mais. É à vontade do freguês. A diferença é tão gradual que acaba numa diluição suave que não se sente a entrar nos ossos. E quem não gostar desta comparação que vá aprender a resolver problemas de cabeça.

O aparecimento do monoteismo cristão que veio transformar-se na crença dos imperadores, reis e principes que determinaram os destinos de grande parte do nosso planeta durante muitos séculos – cristianismo, diga-se de passagem, que foi produto de zaragatas tribais no seio do judaismo monoteista ainda mais velho - veio pôr fim à esperança da democracia de cidade se tranformar em democracia de país.

Mas os impérios da fé com exércitos próprios e, depois, as influências das Igrejas nos assuntos dos Estados e dos Governos não poderiam durar sempre. Aos poucos, a intriga da banca usurária incipiente tomou a peito a missão de enfraquecer o cristianismo, e a tudo isso convencionou-se chamar Reforma. A autoridade papal foi contestada e o protestantismo passou a segunda opinião muita respeitada e destinada ainda a mais divisões.

Entretanto, a revolução industrial, o capitalismo e a classe operária vieram enfeitar uma arena já à cunha, facilitando, pela confusão, o trabalho da intriga já meio-estoirada por ter financiado campos opostos de rores de guerras durante tantos séculos. O estado do mundo nesta altura era ainda pior que na Grécia antiga. O esclavagismo era praticado sem vergonha em todo o lado e não era a Igreja quem tinha o dever de se envergonhar disso.
E foi então que alguem começou a lembrar-se que tinha havido um sistema muito porreiro e popular nessa Atenas que talvez fosse interessante desenterrar para ver se se contentava o povo que estava sempre pronto e aberto a ideias novas que quebrassem a monotonia. Daí à Democracia moderna, com muita intriga de permeio, foi um passo. E um grande resultado: uma Democracia moderna que no primeiro quarto do século XX ainda não tinha decidido se era justo conceder o direito de voto às mulheres, aos analfabetos e à gente sem propriedade.

Apesar de muitos séculos de evangelização politica e religiosa, são muito poucos os que hoje acreditam totalmente na sinceridade daqueles que estão na mó de cima - quer dos arautos da democracia quer dos catequisadores da velha religião democratizada e arrependida. Não obstante essa desconfiança ou defesa natural no homem comum, ganha na experiência diária de observação cínica sem ilusões, a maior parte ainda obedece, por dever ou reflexo condicionado, à ordem de festejar quando os sinos dobram ou repicam com alegria para salvar a Liberade democrática ou comemorar a Natividade cristã. Toda a gente gosta de festas.

Por haver provas históricas de sobejo sobre as intenções das oligarquias renováveis de todos os tipos, ninguém com comando do juizo perfeito e são pode ver muita diferença entre a honestidade da democracia de promessas e a falsidade das promessas feitas pelas Igrejas quando estas costumavam controlar o poder no tempo em que os sacristãos andavam de espada à cinta. Até que alguem consiga provar o contrário, numa linguagem clara para aqueles que nunca andaram nas universidades de Deus ou da Democracia, o objectivo final dum sistema politico moderno de gerência duma nação não pode diferir muito da mensagem geral religiosa dirigida noutros tempos ao mesmo grupo de interessados – a ralé. Ambos convidam à aceitação dum conjunto de leis ou costumes e disposições preparados por um grupo de profissionais evangelizantes à sua maneira. Ambos têm filósofos, santos e mártires para provar a razão das suas doutrinas. Mas, no fim, tudo se resume a duas maneiras, só distintas quando comparadas no pormenor redundante, de subordinar as vontades da maioria a um grupo reduzido de controladores de alavancas misteriosas. Duas maneiras de preservar a ordem que permite a usufruição de desigualdades cuidadosamente regimentadas.

O poder democrático da modernidade que tem recriado, imitado e aperfeiçoado as ideias de Péricles nunca achou importante explicar a ninguém as causas dum interregno de 2000 anos que devia ter sido, mas não foi, um periodo inteiramente dedicado à evoluçao dessa originalidadde. A verdade é que a natureza do poder é inalterável. Aquilo a que as pessoas são ensinadas a chamar evolução deveria, na terra da gramática perfeita, ser chamada adaptação. As guerras e os conflitos apenas ajudaram a mascarar essa verdade.
Essa é talvez a melhor indicação de que há similariedade de objectivos entre democracia e religião. Num certo sentido, a Democracia, que vai evoluindo paulatinamente na direcção da globalização que pode ser vista como objectivo velho de dois mil ou mais anos, não passa duma religião politeista com sacerdotes eleitos através do voto secreto.

Nesta obsessão de querer prevalecer para sempre como cura e solução para todos os males de nações que não param de crescer, é bem possivel que a Democracia, com a ajuda da Ciência moderadora e serventuária, venha a fundir-se com Religião numa aliança que completará o ciclo das incongruências históricas. Historiadores do futuro talvez venham a referir-se a essa fusão como a “espiritualização da democracia” ou a “democratização do espiritualismo”. Nunca se sabe. A única coisa que porá fim às esperanças dos crentes num tal desfecho é a de um dia as maiorias não-convencidas das “democracias” de agora decidirem, numa manhã de sol que não precisa ser em Abril, interpretar à letra os princípios consagrados nos mandamentos-dogmas democráticos e religiosos. Aí é que vai ser o caraças. Germano Filipe

VÊM AÍ ELEIÇÕES - VAMOS ÁS DEFINIÇÕES

ELEIÇÕES - Ninguem necessita participar activamente num jogo para ganhar uma aposta sobre os seus resultados. Mas em eleições políticas, quando essa participação é absolutamente necessária, como por exemplo no caso duma corrida de dois candidatos que só são diferentes nos rótulos e talvez na ideia que têm sobre a melhor forma de incrementar o comércio da lamejinha, há duas coisas importantes a fazer: uma é denunciar imediatamente as promessas do oponente como hipócritas e contrárias aos interesses da maioria; outra é assegurar-se manhosamente de que o programa do outro lhe servirá melhor no caso de perder. Resultado: ou se ganha mais que é quando não se ganha porque o outro ganhou menos porque ganhou, ou se ganha menos que é quando se ganha e o outro ganhou mais porque perdeu. Ganhar mais é portanto uma coisa que depende muitas vezes de perder. Esta situação ainda se torna mais confusa quando houver trafulhice na contagem dos votos e obrigar o candidato que perdeu, isto é, que ganhou mais porque perdeu, a ser precisamente aquele que tem de pressionar constrangidamente para uma nova contagem. (Germano Filipe)