“Em politica, uma minoria organizada é uma maioria política” (Palavras atribuídas a Jess Jackson, homem da Maçonaria Americana, com um alcance que deve ter ultrapassado a intenção original).
O espírito da Democracia é uma ideia muito mais velha que o fervor religioso monoteista cristão, mas o poder de aliciamento e os propósitos são pràticamente os mesmos. Ambos apontam na direcção da disciplina, autoridade, e legalidade à volta de princípos ou crenças. O bom e o mau, o justo e o injusto, interpretados duma maneira longe de perfeita alem de tendenciosa, são conceitos basilares compartilhados com o mesmo entusiasmo. O direito num é chamado caridade no outro, e o que é mandamento num chama-se regulamento no outro. São autocarros com o mesmo destino por rotas diferentes.
A experência democrática de há 2.500 anos numa cidade grega pagã nem deu para aquecer em termos de tempo de História, se é que a História que nos contam corresponde exactamente àquilo que se passou. E se tudo foi realmente com se conta, a democracia clássica de Atenas aconteceu num tempo de ganâncias e guerras, de colonialismos primitivos, de paganismo, de esclavagismo, de cidadãos de primeira e de segunda e até de terceira e quarta. Um modelo fantástico para ser copiado. Exactamente como acontece nos tempos modernos, só que pior: a liga das cidadanias modernas vai de cidadãos de 300 euros ao mês a 50 mil. Ou mais. É à vontade do freguês. A diferença é tão gradual que acaba numa diluição suave que não se sente a entrar nos ossos. E quem não gostar desta comparação que vá aprender a resolver problemas de cabeça.
O aparecimento do monoteismo cristão que veio transformar-se na crença dos imperadores, reis e principes que determinaram os destinos de grande parte do nosso planeta durante muitos séculos – cristianismo, diga-se de passagem, que foi produto de zaragatas tribais no seio do judaismo monoteista ainda mais velho - veio pôr fim à esperança da democracia de cidade se tranformar em democracia de país.
Mas os impérios da fé com exércitos próprios e, depois, as influências das Igrejas nos assuntos dos Estados e dos Governos não poderiam durar sempre. Aos poucos, a intriga da banca usurária incipiente tomou a peito a missão de enfraquecer o cristianismo, e a tudo isso convencionou-se chamar Reforma. A autoridade papal foi contestada e o protestantismo passou a segunda opinião muita respeitada e destinada ainda a mais divisões.
Entretanto, a revolução industrial, o capitalismo e a classe operária vieram enfeitar uma arena já à cunha, facilitando, pela confusão, o trabalho da intriga já meio-estoirada por ter financiado campos opostos de rores de guerras durante tantos séculos. O estado do mundo nesta altura era ainda pior que na Grécia antiga. O esclavagismo era praticado sem vergonha em todo o lado e não era a Igreja quem tinha o dever de se envergonhar disso.
E foi então que alguem começou a lembrar-se que tinha havido um sistema muito porreiro e popular nessa Atenas que talvez fosse interessante desenterrar para ver se se contentava o povo que estava sempre pronto e aberto a ideias novas que quebrassem a monotonia. Daí à Democracia moderna, com muita intriga de permeio, foi um passo. E um grande resultado: uma Democracia moderna que no primeiro quarto do século XX ainda não tinha decidido se era justo conceder o direito de voto às mulheres, aos analfabetos e à gente sem propriedade.
Apesar de muitos séculos de evangelização politica e religiosa, são muito poucos os que hoje acreditam totalmente na sinceridade daqueles que estão na mó de cima - quer dos arautos da democracia quer dos catequisadores da velha religião democratizada e arrependida. Não obstante essa desconfiança ou defesa natural no homem comum, ganha na experiência diária de observação cínica sem ilusões, a maior parte ainda obedece, por dever ou reflexo condicionado, à ordem de festejar quando os sinos dobram ou repicam com alegria para salvar a Liberade democrática ou comemorar a Natividade cristã. Toda a gente gosta de festas.
Por haver provas históricas de sobejo sobre as intenções das oligarquias renováveis de todos os tipos, ninguém com comando do juizo perfeito e são pode ver muita diferença entre a honestidade da democracia de promessas e a falsidade das promessas feitas pelas Igrejas quando estas costumavam controlar o poder no tempo em que os sacristãos andavam de espada à cinta. Até que alguem consiga provar o contrário, numa linguagem clara para aqueles que nunca andaram nas universidades de Deus ou da Democracia, o objectivo final dum sistema politico moderno de gerência duma nação não pode diferir muito da mensagem geral religiosa dirigida noutros tempos ao mesmo grupo de interessados – a ralé. Ambos convidam à aceitação dum conjunto de leis ou costumes e disposições preparados por um grupo de profissionais evangelizantes à sua maneira. Ambos têm filósofos, santos e mártires para provar a razão das suas doutrinas. Mas, no fim, tudo se resume a duas maneiras, só distintas quando comparadas no pormenor redundante, de subordinar as vontades da maioria a um grupo reduzido de controladores de alavancas misteriosas. Duas maneiras de preservar a ordem que permite a usufruição de desigualdades cuidadosamente regimentadas.
O poder democrático da modernidade que tem recriado, imitado e aperfeiçoado as ideias de Péricles nunca achou importante explicar a ninguém as causas dum interregno de 2000 anos que devia ter sido, mas não foi, um periodo inteiramente dedicado à evoluçao dessa originalidadde. A verdade é que a natureza do poder é inalterável. Aquilo a que as pessoas são ensinadas a chamar evolução deveria, na terra da gramática perfeita, ser chamada adaptação. As guerras e os conflitos apenas ajudaram a mascarar essa verdade.
Essa é talvez a melhor indicação de que há similariedade de objectivos entre democracia e religião. Num certo sentido, a Democracia, que vai evoluindo paulatinamente na direcção da globalização que pode ser vista como objectivo velho de dois mil ou mais anos, não passa duma religião politeista com sacerdotes eleitos através do voto secreto.
Nesta obsessão de querer prevalecer para sempre como cura e solução para todos os males de nações que não param de crescer, é bem possivel que a Democracia, com a ajuda da Ciência moderadora e serventuária, venha a fundir-se com Religião numa aliança que completará o ciclo das incongruências históricas. Historiadores do futuro talvez venham a referir-se a essa fusão como a “espiritualização da democracia” ou a “democratização do espiritualismo”. Nunca se sabe. A única coisa que porá fim às esperanças dos crentes num tal desfecho é a de um dia as maiorias não-convencidas das “democracias” de agora decidirem, numa manhã de sol que não precisa ser em Abril, interpretar à letra os princípios consagrados nos mandamentos-dogmas democráticos e religiosos. Aí é que vai ser o caraças. Germano Filipe