Portugal Corner

Sábado, Dezembro 18, 2004

SALVE RAINHA

Ao senhor Rainha do Blogue de Esquerda, a propósito da ideia de pernas largas de que há gente que anda a querer acabar com o menino Jesus.

Talvez seja esse teu nome de cristão-novo (pêra, mação,ameixa, arbusto e soberana) que trai o esforço de quereres disfarçar, com a ajuda do histrionismo-argumento tão em voga, o teu sentimento bem guardado de que o vôvô, papá, titi, ou nesmo tutu, devem ter andadado, ou andam, pelas maçonarias que vestem as roupas de progresso do carnaval da História que costuma entreter saloios. Então nem sequer reparaste que o O’Reilly, que é onde gente de esquerda como tu vai pescar as anedotas e aprender inglês, disse “jihad” mas não “Jewhad”, porque isso talvez não agradasse ao patrão? E não te rias muito com as teorias de conspiração que falam de planos bem engendrados para acabar com o espírito de Natal em países cristãos. Não rias, porque as gargalhadas podem sair-te pela culatra, ou por outro buraco qualquer. Se ainda andas a pensar que as revoluções francesas, portuguesas ou russas ou cubanas (onde a Maçonaria está de muito boas relações com o Fidel) tinham alguma coisa a ver com o aparecimento de novas classes (burguesas ou proletárias, ou uma salada das duas), então ainda tens muito que aprender. E não me venhas dizer que és um grande ateu, ou agnóstico como El Presidente, ou humanista, ou liberal de esquerda que não dá dois tostões pelas brincadeiras de Natal para entreter meninos que gostam de presentes e arroz doce. Também eu, filho, também eu fui, sou ou pareço que sou, quando calha, essas coisas todas.Depende do dia da semana. Mas tento tudo para não me deixar levar pelas correntes das caravanas de camelos que cortam em todas as direcções, milhares de vezes por dia, o deserto da ignorância judo-cristiana.

Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

DIREITO Á MEDICINA

Eu não sei se alguem já reparou nisso como eu, mas há profissões que andam sempre na berlinda quando a intriga política dos países dedicados à prática do desamor ao abrigo da lei necessita duma desculpa convincente e devidamente “abalizada” para fazer acreditar versões oficiais junto dum público que tem sempre a boca aberta para engolir trezentas páginas de relatórios e pareceres definitivos. Acontece em todo o lado. Nas Alemanhas, nas Franças, nos Canadás e nas Américas shuorzanagueiras e brucewileiras e nas Inglaterras dos cremes das coisas boas e solenes das políticas disfarçadas com cabeleiras e batas brancas. E até nos Portugais de pias e católicas religiões que fecham as portas aos tribunais para que o povo não meta o nariz nos assuntos de ateus que foram apanhados a adorar, em posição de inegável blasfémia de corpo inteiro, os meninos jejuses que escolhiam a dedo.

Na minha opinião pessoal, opinião que tive a sorte de ter sorvido num sonho muito agitado duma noite há muitos anos, médicos, com os seus adjuntos de farmácia e bio-medicina e juristas, com os seus especializados em legislação de conduzir os povos, são, de longe, a nata das profissões liberais a que os governos recorrem mais quando se metem em lençois sujos que foram desfraldados por descuido. E estão presentes em todo o lado: em comissões, em “quangos”, em direcções de partidos, em corpos solenes, em bastonarias e ordens de obediências a cúpulas, e o que se queira inventar. As leis coagem as pessoas a andarem “direitas” sob a sua alçada e a medicina ajuda-as a aguentarem-se de pé ou a arrastar as canetas. Duas coisas básicas para manter a sociedade em movimento... e a trabalhar.

Mas longe de mim a injusta intenção de anatematizar estas duas classes na sua totalidade. Deus me livre! Estávamos lixados se as sardinhas estivessem todas moídas ou os figos tivessem todos com bicho. Há tanto médico e advogado de bom coração por esse mundo fora que o pormenor de não estar habilitado a nomear um, porque não frequento esses círculos, pouco conta. Quantos marxistas não se embevecem com o facto de que o Fidel era advogado e o Che era médico! E todos sabemos do inegável valor dos “médicos sem fronteiras”, arriscando vidas que poderiam ser de conforto ou de não-te-rales, em teatros de guerra ou em terras de fome. E não apenas isso: foram médicos aqueles que começaram a denunciar os podres das suas áreas profissionais há muitas dezenas de anos, sem conseguirem tocar nos corações da maioria dos seus confrades. E pense-se também na bravura de advogados que tiveram a coragem de enveredar pel a via perigosa do “suicídio” profissional aceitando a responsabilidade de defender causas tão melindrosas como as de tentar levar a tribunal dirigentes politicos dos países mandões da nossa era por crimes de guerra cometidos contra o povo do Iraque e muitos outros casos.

Infelizmente, essas excepções, sendo honrosas, não são a regra. O capitalista Gillett, e muitos outros patrões socialistas, incluindo aqueles que subsidiavam Marx quando ele escrevia o Kapital que os operários nunca tiveram tempo para ler porque tinham de trabalhar o dia todo para dar de comer às famílias, nunca poderia influenciar o juizo final sobre o verdadeiro caracter do capitalismo como força política. No caso dos médicos, as excepções são bonitas e de apreciar mas são canceladas prontamente pelas maiorias aplaudentes e de vénias ao establishment. Por isso, os “médicos” a que nos referimos tantas vezes com intonações pejorativas só podem ser aqueles que nunca tiveram a independência de espírito profissional para contestar o injusto que lhes pôem na frente como tarefa para ser implementada ou seguida à risca. E é a essa maioria de almas vendidas que nos referimos quando falamos de médicos sem admiração ou com azedume.

Porque, infelizmente, para cada Antoine Beauchamp - despasteurização da teoria microbial que ainda embala os homens da nossa mediciana - ou cada médico famoso no passado que teve a visão e a coragem de romper com as rotinas da medicina tradicional, há milhares de mini-Mengels da actualidade, de vacina ou antibiótico em riste ou pronto para meter-nos pela boca a baixo o último grito da moda terapeutica de efeitos secundários desenhada nos laboratórios tenebrosos das curas formidáveis. Entre médicos, chupar a teuta da farmaceuta é a regra.

Quanto aos gabirus que abraçaram Direito porque nunca tiveram cabeça para aprender tabuadas complicadas, esses devem certamente estar no gozo quando vêm com histórias de que a a lei não produz injustiça contra ninguém (Lex nemini operatur iniquum) ou que pune a mentira (Lex punit mendacium). Façam perguntas descaradas a um corporate lawyer no estado de hipnose e verão o verdadeiro alcance destas latinadas do Direito Romano.



Quando o corpo do Dr Kelly foi encontrado entre arbustos na área posh de Oxfordshire, a primeira reacção oficial que não surpreendeu ninguém foi a de que homem se teria suicidado devido às pressões a que o submeteram por razão de ter batido com a língua nos dentes sobre o conteúdo modificado dum certo dossier que tratava dos perigos representados pelo regime de Sadam Hussein. Como de costume, lá estava o patologista da corda para pontificar : o homem cortou os pulsos, tratem mas é do funeral. Depois vieram os inquéritos a uma morte suspeita, aspas nos lados. Umas zangazitas de pouca monta com a BBC puzeram o selo final da distracção. E era advogados para aqui e era médicos para acolá e ficou tudo em família e em águas de bacalhau. A lei é a lei, medicina é medicina e óbitos são óbitos e medicastros são medicastros. Pouca interessava nessa altura coçar o queixo pensativamente à Sherlock Holmes ou Watson e perguntar que razão teria levado o cientista a rasgar os pulsos da esquerda para a direita ou estranhar o facto de não haver vestígios de hemorragia abundante no local, coisas notadas por paramédicos que tem aí cerca de 900 vezes mais experiência que um médico em casos semelhantes. E, agora, os patologistas teimosos ainda têm uma explicação melhor: como o homem tomou uma “overdose” de comprimidos e mudou de ideias a meio caminho, o corpo não teve força para reagir com normalidade à rotura abrupta de artérias. Conclusão: suicídio - talvez por ataque de coração causado pelo susto de não ter visto o sangue esguichar como era previsto, tudo possivelmente subsidiado ou agravado por toxicemia hepática. Uma espécie de auto-assassínio. Mas com a ajuda de advogados que preparam leis não mendazes não há doutores com temores.
Mais complicado que isto só a operação efectuada há muitos anos por um médico de Bond Street durante a qual esse médico matou o doente e o homem que lhe passava os bisturis e não tenho a certeza se ele próprio teria sobrevivido.

E se alguém ficar a pensar que sou má lingua, diga-me que dou-lhe uma lista de juristas internacionais sem vergonha e sem coração de que ninguém gosta ..e o Richard Nixon não irá constar nela. Quanto aos médicos, basta dizer que pertenço ao partido que acha que o bronze utilizado frente ao hospital de Santa Maria teria sido muito mais bem empregue numa estátua à enfermeira desconhecida... e isto é para não falar do maior especialista de joelhos inglês que há quinze anos atrás teve que pedir-me ajuda para diagnosticar o problema da minha patela esquerda, o que fiz com todo o gosto e com uma perícia cava vez mais rara e mais vendida no mundo da medicina ao serviço da política, que anda a soldo das outras coisas todas que a gente sabe....

Quinta-feira, Dezembro 16, 2004

PACHTÈJE DE BÊLÊME

Some of this
Will no doubt
Be amiss.
However,
I still say
In Portugal
Some “sacanas”
With little dosh
Drive me bananas
As much
As the prosperous
And posh.
So I am going
To put an end
To this labour
Of jotting down
All the time
In Portuguese
And do them
A favour
By nagging
In fine Englese.
And this
Will serve
To tell
Poor
And rich,
But mainly
The latter,
To stop
All babble
Or patter
While eating
Pachtèle di Nàta.




Germano Filipe

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

A GRAMÁTICA DO FUTURO SOCIALISTA

Seguem as palavras do deputado do PS, José Saraiva, publicado no JN hoje, intitulado Novo Futuro, na secção opinião. Se é isto o melhor que o PS pode apresentar em termos de bruxas estratégicas especializadas em comportamentos adequados para uma vitória nas próximas eleições, então a “Direita” nem vai precisar dos favores de três mêses del Presidente. Os comentários entre parênteses são da autoria deste bloguista.




“Qualquer exercício sobre a nossa actualidade política exige ser desenvolvido com especial cuidado e, sobretudo, grandes cautelas sobre as previsões do que acontecerá, apesar das vontades de cada um, ou 'estilo' assumido... Quer isto dizer que, afinal, os resultados só se conhecerão no "fim do jogo".

(Tenham cautela com as previsões - que só podem evidentemente ser do que acontecerá - porque os resultados só se sabem no fim que é quando toda a gente sabe o que aconteceu..)

”Talvez o mais importante será observar com clareza o que vier, verdadeiramente, a acontecer ou haverá um resultado eleitoral que possibilite uma real mudança ou corremos o risco de ficar tudo na mesma e ficarmos reféns de um "outro tempo".

(Observar o que vier a acontecer pede ainda mais ajuda a bruxas políticas num tempo de não haver outro remédio que o parágrafo precedente, sugerindo que a mudança real poderá muito bem vir a ser no campo da gramática deste tempo).

Necessitamos de uma nova época, com alterações várias e complexos movimentos. E estes não serão fáceis. Aparentemente, não haverá facilidades, nem se vislumbram áreas de resolução pacífica. Não há um grande espaço de manobra. Mais do que alterações de forma ou de estilo, exigem-se verdadeiras alterações de conteúdo. Não se poderão ficar pelas "meias voltas"

(Aparentemente, não vai haver paz com movimentos complexos que ainda por cima são dificeis e as resoluções sobre os conteúdos vão ser violentas porque não pode haver rodeios, por falta de espaço)

Não se pode confundir vontade com capacidade...

(Isto foi com certeza copiado duma avó qualquer que já dizia o mesmo...)

Provavelmente, haverá outra interpretação mais consciente e, certamente, mais sólida. É preciso haver intensos cuidados, sejam de quem for!

(É preciso usarem intenso cuidado quando dou opiniões: andam por aí outras mais sólidas!)

Admito que poderá haver uma "mudança" pensada. Mas de que tipo ?

(Solução numa das páginas de anúncios..)

Existem vários desejos para o nosso futuro. Há muitas perguntas cujas respostas estarão longe de serem encontradas facilmente para quem tiver a Nova Futura responsabilidade.

(Mais dificuldades. O meu socialismo está-se a ir abaixo. Não vão atrás de cantigas que dizem “mais vale um desejo que três vintens”).

O que parece óbvio é que se vislumbram sinais da aproximação de "novos tempos". Será cedo para o afirmar? Não será! Mas como serão os dias seguintes?

(Será? Ou não será? That is the question... about the bleeding grammar! O vislumbrar óbvio dos novos tempos que se aproximam o dirá...)

A Esquerda terá de tornar a tentação exequível, terá de assumir riscos, mas terá de se apresentar na sua melhor forma, capaz de mudar o que tiver de mudar e, também, capaz de manter o que estiver certo. Estamos perante a grande oportunidade de assumir as rupturas verdadeiramente necessárias e de manter as apostas certas até ao fim.

(O melhor é a gente mudar o nome ao governo e manter a política do PSD, e aproveitamos para dar ao peripatético verbo assumir uma utilização que seja exequível tanto em casos e tempos de rotura como de sutura).

Nestes momentos, é claro que se multiplicam os que querem assumir a mudança. Existem vários desejos, muitos estão disponíveis. Mas não devemos apenas contar com os indiscutíveis. É, sim, ainda um tempo de espera, mas de grande trabalho. Teremos vários dias de discussões e de intensa preparação. Do que não duvido é que se irá verificar, desde já, quem profira afirmações tremendas. Quaisquer dessas afirmações serão assim os sinais que cada um terá de assumir perante uma oportunidade rara, que valerá neste tempo de completa mudança.

(Mais assunções. Mais vinténs políticos, uns discutíveis, outros não. Mais gramática desorientada à espera de melhoramentos. Mais dias de discussão intensa para descobrir o sexo dos nabos tremendos e raros neste tempo de mudança que vai ter oportunidade de ser exequível..).

É um tempo de um combate decisivo, intenso e de nenhumas facilidades.Assistirei a isto tudo com muita tranquilidade...

(Intensidade, combatividade e dificuldade: três remédios socialistas indispensáveis à venda em todas as farmácias do país que lhe trarão a tranquilidade que merece em tempo de eleições! Compre já!)

Terça-feira, Dezembro 14, 2004

POESIA DO ANTAGONISMO

Poemas são
Mudos fonemas
Cantados, chorados
Solvidos dilemas
São cães
Ou pombas,
São baixas
Ou lombas
Sóis, negridões
Políticas,
Verdades analíticas
Amores e dores
Do par singelo
Do belo paralelo
Deste mundo risível
Do outro invisível
Da nunca manhã
Do amanhã
Que vês
Cegamente
Porque não crês

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

ESTÉTICALLY WRONG

Recado ao sr Palhinhas do Blogue de Esquerda que anda muito ofendido pela parva opinião de gente da direita que anda por aí a espalhar que a Estética é propriedade da Direitética.





“Olhe aí, Sr. Palhinhas, pinto cabeludo ou galo irritado por ser inestético porque é de esquerda : então não sabe que o Bitòven adorava a Revolução Francesa porque era surdo e não ouvia o som das guilhotinas do Rouba aos Pedros a cortar nervo e osso do pescoço do Marate que se marimbava do som que saía das goelas do Dan Ton que também gemia quando lhe cortavam o seu. E quem é que lhe disse que a massonaria é revolucionaria ou de esquerda, quando usa beleguins, barões e banqueiros como militantes? Teria sido a mesma pessoa que esqueceu contar-lhe que o Mozart foi eliminado por essa mesma senhora de “esquerda”, por ter tido a ousadia de tocar “Flautas Mágicas” que revelavam certos segredos de ritualidades massónicas de “esquerda” ?.E, já que estamos com a mão nas massas sem requiems, quem é que também teve o desplante de o não informar que o V..V...Vagner era o compositor preferido do Hitler - um rapaz de quem você certamente não gosta muito e simboliza o crème de la crème da Direita? Pense nisso rapaz!

POIS É....

O capitalismo em Portugal gosta de dançar
E de bater pé em viras e chulas de Economia
Para o ano vai ficar em décimo nono lugar
E melhor no ano seguinte se mudar de Maria


Nota: Quadra inspirada por uma very boring notícia n "O Público"´de hoje.

Domingo, Dezembro 12, 2004

NÃO VALE A PENA UMA PESSOA...

NÃO VALE A PENA UMA PESSOA...



“Tudo vale a pena se a alma não é pequena” – lá dizia o poeta anti-socialista, anti-comunista, sidonista, monárquico por convicção e republicano por por não haver outro remédio, cristão secreto, gnóstico, segundo os preceitos da santa Kabbalah de Israel, meio-fidalgo e meio-judeu no sangue e nas origens, avesso à Igreja Católica Apostólica Romana e a todas as igrejas organizadas excluindo as sinagogas, apologista da liberdade mas só da que era permitida pelo conservadorismo inglês, anti-reaccionário adorador da santa cabala e seguidor da essência oculta da Maçonaria e outras templaridades, e cujo heroi martir preferido se chamava Molay- um homemq que, actualizadas as correspondências, tinha mais poder economico no século XIV que hoje têm a ESSO, a GM e a Microsoft juntas. Que a alma de Fernando Pessoa, e dos outros alter egos que encarnava se calhar no gozo ou com pudor antecipado, reste em paz no Mosteiro dos Jerónimos ao lado do nosso Camôes - cama eterna preparada com amor da mesma duração pelos amigos da ideia que ainda por cá andam, uma honra que nunca lhe deve ter passado pela cabeça vir a ser recipiente quando fumava os seus cigarrinhos e bebia a sua bica e o Esteves lhe dizia adeus da porta da Tabacaria.

Na verdade, tudo vale a pena se a mente estiver serena, ou fria ainda melhor seria, porque ao fim e ao cabo quem não serve Deus serve o Diabo, ou faz como eu que sou ateu reformado para agradar às ludovinas, ou então faz como o presidente Sampaio que andou às voltas politicas depois da revolução até esbarrar, numa força do destino planeado, no partido dos gnósticos agnósticos.

Mas a mim, autor esporádico de verso coxo, neto dum pedreiro que trabalhava com tijolo a valer para construir casas, sem fidalgos na família e que nunca vi a minha mãe varrer o lixo da porta para dentro por força da tradição, se me perguntarem, não vejo muito suco no “tudo vale a pena..” de Fernando Pessoa. O que vejo é uma brilhante rima que cai bem no ouvido, e que tanto pode vir à cabeça dum virgílio qualquer depois dum copo de três como a seguir a um pontapé numa pedra. Quanto ao conteúdo, acho que há muita coisa neste mundo que não “vale a pena”. Uma delas, e muito importante, é acreditar nas balelas das elites “ocultas” que pretendem convencer-nos que andam a construir um mundo melhor, com ajuda do compasso e do esquadro e um olho muito grande e observador no ápice duma pirâmide. Para mim, judaísmo e cristianismo, cabalas e cantos gregorianos de embalar pertencem todos à mesma família – a da ilusão.

E ainda andam por ai portugueses a resmungar que nos outros tempos é que era bom porque havia mais fado verdadeiro e desrockisado, ou que agora é muito pior em termos de gente equilibrada politica e espiritualmente. Se já não bastasse não haver capacidade para escrever xácaras freudianas como o Fernando que punha em cada verso a calma necessária para exteriorizar as pieguices da alma.

E Pessoa sabia que os poetas como ele tinham bons motivos para acreditar nas coisas que o faziam vibrar em noites de luares uivados e magias negras. E deixou tudo em testamento bem assinalado, não fosse algum ensaista maluco com gosto pela investigação roubar-lhe o direito de ser ele o primeiro a revelar esse horror de inclinações, vassalagens contraditórias e viagens confusas à volta dos planetas das tristezas indiziveis, muitas vezes convidando liricamente o eu-que-não-existia a travar combates de morte, ou pelo menos a andar à carolada, com o não-ser-de-viver para comover lagartixas em aulas de português que se vão abaixo com o assomar da primeira lágrima.

Mas se o grande poeta pudesse voltar a este mundo para dar um olhadela ao estado da ignorância que dizia desprezar com todas as forças, verificaria que os seus irmãos de alma e coração que cá deixou não têm andado a arrastar corpos preguiçosos pelas esquinas. Para começar, já ninguém acredita em sebastianismos e os nacionalismos também andam muito por baixo nesta parte da Europa. Agora é tudo big brother mascarado de progresso, à escala do planeta, bem entendido, mesmo sem cheiros de modernistas e da belle epoque. No que a Portugal toca, continua-se a aproveitar um feitio português muito antigo: o hábito de olhar o mar que é o hábito cobiçoso de admirar àquilo que é estrangeiro e distante enquanto se vai deitando abaixo os produtos da casa. Não que não haja razão para criticar as qualidades de terceira de certas mercadorias nacionais nas áreas da gerência de instituições e fundações, e da política de tocar pratos. Mas o som varinal e o jeito de mão na ilharga doutros tempos ainda por cá andam..

E veria mais. Veria que o grande defeito, ou virtude, dos oradores do convencimento político reside na capacidade para esconder ou considerar pouco importantes as matrizes das grandes mecas do poder que causam as nossas insuficiências e desgraças. O poder, para surpresa e orgulho do Fernando se ele cá pudesse voltar, está nas mãos duma internacional a valer, sofisticada e velha como uma rata, que criou quase certamente aquelas outras internacioanis que os operários embarrilados costumavam e ainda costumam seguir com bandeirinhas vermelhas e pandeiretas, e todos divididos, claro.

E até talvez visse, se esgravatasse um pouco as crostas superficiais das aparências, que o espirito que acompanha este beber do pirolito moderno do convencimento é velho. O politico ou sindicalista, ou uma mistura dos dois que pode resultar em tudo menos num homem interessado em desbravar as florestas do engano, que vive de raivinhas periódicas ao patrão venal e explorador e a governos incapazes ou ineficazes, servidores aparentes de classes que parecem distintas e opostas às maiorias, esquece-se que os males e os podres dum país pequeno como é o nosso são doenças antigas produzidas há muitos anos por gente com uma visão planetária das coisas que a nós nos parecem triviais e de deglutição diária sem queixa. E essa gente tambem sabe de geografia. Para eles, Portugal é apenas um sexto de 1 por cento das pessoas deste mundo e pode ser calado a qualquer altura com um burgher de 200 gramas enfiado pelas goelas abaixo. A nossa figura é ainda menos impressionante no club dos tamanhos das pátrias e dos exercitos de manter as ordens mundiais.

O poeta Fernando Pessoa não tinha, a meu ver, razão para pensar como pensava porque o planeta, de acordo com simples regras naturais ou de justiça, não pertence às elites esotéricas que ele admirava com evidente sinceridade.. O planeta, nunca ninguém parece ter tido oportunidadde de lhe dizer, pertence ao Homem com letra maiuscula que não precisa de revolução e progresso para se libertar, ao contrário do que apregoam os lacaios disfarçados do esoterismo lagarteiro. O que o Homem precisa é de Saber Ver.

Infelizmente, no que aos portugueses toca, na responsabilidade e necessidade que há de compreender o que está acontecer neste mundo, o povo em geral, e a tropa revolucionária de base em particular, nunca reparou, no passado recente, que os ataques à sociedade iníqua de Salazar eram, principalmente, ataques à Igreja Católica que foi o que também animou os homens de 1910. E outros 1910 noutras partes do mundo. Na falta das provas que foram queimadas, a intuição é a única arma que temos para nos ajudar a concluir que a condição social da Humanidade tem muito pouco a ver com aquilo que anima os cabecilhas das revoluções e das confusões. A religião, no entanto, tem muito. São milhares de anos de experiência a andar de Herodes para Pilatos.