Uma das constatações mais tristes que se oferecem diàriamente às pessoas lùcidamente preocupadas com o estado do Mundo é a de que esse Mundo, na essência, não mudou muito em termos de justiça social nos últimos, digamos, 2000 mil anos de História. Ou quatro mil, tanto faz, ou até mesmo nos seis mil e tantos que é a idade do planeta relatada na Biblia judaica dos povos eleitos. Por “justiça social” entenda-se, por conveniência e um certo respeito à aritmética: distribuição equitativa da riqueza resultante do trabalho. Mais ou menos segundo os critérios apregoados por socialistas que não gostam de comunistas que se dizem marxistas que odeiam anarquistas que se aliaram ou zangaram com sindicalistas que acabaram por arrumar as botas como força política, mas não antes de deixarem uma carta para as gerações vindouras para examinarem cuidadosamente o potencial do fundo de desemprego vir a ser utilizado como arma económica para abater o capitalismo. E digo “mais ou menos” em vez de “inteiramente” porque a esmagadora maioria já anda a tocar trombone, ou coisas com configurações ainda mais próximas da anatomia masculina, há cento e tantos anos e nunca reparou que tem andado a ser joguete de gente muito mais esperta que ela.
Mas retomando o tema da equidade que não existe, ocorre-me esta constação dum facto histórico inegável: Um mercador qualquer de utensílios de cobre, frutos secos, sal e tecidos finos das arábias chamado Marcus Espertus, digno cabecilha da firma Furtorium & Roubatorium, com sede numa cidade ribeirinha do Mediterrâneo desses tempos da História de andar de rastos e de dar vivas a imperadores romanos, com escravos e lacaios para o servirem e muitas vezes com um pequeno exército de apaniguados para o protegerem, tem, vejam só isto!, os seus correspondentes e equivalentes, e em número muito maior, em qualquer pais do mundo actual, industrializado ou não. Incluindo a República Centro Capristana. Malta dura de largar mão de coisas boas, esta gente rica. Como as religiões antigas, ou as profissões velhas de abrir as pernas.
E o que isto em suma revela sem precisarmos matar a cabeça é que, depois de muita conversa sobre evolução social, revoltas de escravos e servos da gleba, com a ajuda de ciências, alquimias, guerras entre religiões, quedas de impérios, invenções de nações, filosofias de interpretração das modas e costumes e muita revolução para levar a cabo essa evolução que todos esperávamos viesse contribuir com resultados mais rápidos para avanços em “justiça social”, ainda continuamos a aguentar com a mesma merda de diferenças acentuadas entre o creme to topo e o esterco da base. Mesma, se alguem não quizer usar o termo “pior”: de facto, a ricalhada da História clássica, suja nos métodos e brutal na maneira de ser como foi, nunca recorreu à violência subtil, de sofisticados rodeios, de nos conspurcar o espírito, controlar as nossas consciências e capacidade de raciocinar, como hoje se nota em sociedades modernas de parlamentarismos cobridores de ganâncias insaciáveis. Apesar de declarações em contrário escritas nos livros dos homens que dizem querer salvar(conversa fiada) este planeta a todo o custo, a verdade é que, na área do conforto e felicidade, o mundo regrediu, não em termos de 10 ou 20 anos mas em termos de 2.000 anos para muitos milhões de pessoas do terceiro mundo. Pense-se na África, quando se quizer provar este ponto. E pense-se no quadro de fome e miséria que o clube de países privilegiados tem sempre à mão para escarrapachar nos televisores e mostrar aos seus pobres, que também os tem com fartura, que há gente que ainda vive pior. Por isso, o êxito da filosofia de não querer repartir depende bastante da maneira como não se reparte. Manter a super-iniquidade limitada ou geogràficamente compartimentada é fundamental para a sobrevivência dos distribuidores de rações.
E esse forçar-nos a pensar duma certa maneira das sociedades modernas, cuidadosamente desenhada pelos especialistas ao serviço das oligarquias que se escondem por detrás de cofres e altares, tem como objectivo primário o de nos levar a acreditar que o nosso estllo de viver e de pensar é a manifestação de contentamento que resulta da usufruição de liberdades queridas conquistadas durante séculos de lutas gloriosas nos campos de batalha da evolução da humanidade. E quem não acreditar nisso, pergunte a um democrata velho que levou o nome botado numa rua da aldeia onde nasceu.
Para nos conservar contentes com o que temos e domesticada-mente desinquisitivos, um dos instrumentos mais utilizados pelo poder do ouro e da intriga para nos obrigar a considerar como natural a evolução de pé-coxinho da condição humana é, claro, o partido político.
O partido politico não é uma invenção velha, mas é interessante verificar a maneira como adoptou modos e atitudes de coisas mais antigas, como as religiões, por exemplo. Ou as cabalas que dantes não gostavam de Deus e de repente começaram a aceitar tudo o que viesse à rede para disfarçar origens e mistificar intentos. Pode haver explicações melhores que esta, mas os partidos politicos surgiram com o propósito de dar continuidade à intriga por outros meios, para evitar a perigosa ou ridícula confusão de mais guilhotinações de guilhotinadores como aconteceu na Revolução Francesa quando magotes de povo seguiam sem perguntas nem garantias o demagogo que conseguia gritar mais alto. As ligas de amigos, os grupos e grupinhos, as associações, as lojas e as pequenas panelas de fermentações do grande século das luzes nunca iluminaram aquilo que importava e que ainda hoje se anda a esconder - como o problema de se saber se a canção de querer servir o povo e a nação não passa de pura cantilena ao serviço dum amor de beijar os pés dum idolo qualquer que não é mencionado nem na história do país nem na memória dos militantes crédulos. Se essa gente dos partidos primeiros foi honesta e franca, as provas não abundam. Temos resultados, isso temos: 40 partidos numa nação de quartéis com
apenas dois a puxarem os cordéis.
Se a fome e iniquidade que grassa neste mundo não é da responsabilidade de partidos procuradores e governos procuratórios que já nos presentearam com pelo menos duas guerras grandes, cinco ou seis médias, e várias duzias de outras guerrazitas para quebrar a monotonia deste planeta que vive na escuridão, então de quem será? Ah, já sei: é do capitalismo e do imperialismo. Então quando tivermos provas vamos meter esses dois gajos na cadeia, como fizèmos ao “fascismo” depois do 25 de Abril, que é para eles aprenderem.
No entretanto, o nosso trabalho esforçado de cidadãos inocentes para continuarmos felizes a cagar opiniões sobre o mundo dos pobres e dos ricos, cantando e rindo com as explicações que o sistema nos providencia ou facilita, vai produzindo transpirações e cheiros desagradáveis. Suores craniais de culpas. Há, por isso, necessidade dum banho diário de revitalização mental que funcione como desodorizante ou bloqueador, dos quais o mais popular é talvez o de sentarmo-nos frente a um televisor e ouvir os relatos frescos das coisas permitidas. A alternativa matinal também resulta, podendo ser adquirida, em qualquer quiosque, na forma de jornal ou revista. Mas cuidado, alguns deixam nos dedos o pó preto das mentiras em decomposição com o perigo de entrada imediata na circulação... e morte instantânea. Por abuso.