Portugal Corner

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

INDEPENDÊNCIA JORNALÍSTICA

Ontem, quando andava a dar voltas de bicicleta entre os canteiros floridos do meu jornal preferido (O Público), deparei com uma notícia que me chamou a atenção por ter a ver com blogues e bloguistas da cibernária lusitana. Um grupo destes rapazes e raparigas reuniu-se na linda cidade de Guimarães para coloquiar sobre os efeitos, encantos e desencantos desta nova indústria de entretenimento - dominada pela brigada do falatório barato que não deixa ouvir o resto que anda tentar mostrar um pouco de originalidade e criatividade. A irmandade bloguista, vou-me apercebendo, inclui uma quantidade farta de jornalistas frustrados por não serem donos de jornais ou capatazes de redacções, além de outra gente com ambições no mundo das letras, de mistura com o resto que gosta de largar a sua. Mas todos ligados pela placenta comum do prazer de escrever e da ilusão que as coisas que escrevem irão ser lidas por alguem que está preparado para pagar cinco réis por elas.

Num país normal como Portugal, a braços com problemas diários de governos insuficientes e oposições que não valem um corno mas que não param de proclamar que também elas têm direito de regressar às pastas e aos púlpitos da insuficiência, um encontro desta natureza organizado por bloguistas até poderia abrir oportunidades fantásticas a quem estivesse disposto a fazer alguma coisa pelo país que parece ter entrado com a pantufa esquerda no século XXI. E o facto de ter sido realizado em Guimarães até podia ter dado azo a uma nesga de iluminação que iniciasse um movimento-de-não-acordar-ensonado imparável a que se poderia dar o cognome de “Re-Nacionalidade”. Ou Blogacidade, vamos lá.

Mas não. A mesma conversa coloquiada sem sal nem pimenta do costume que faz lembrar as iniciativas dos criptocomunistas da Maçonaria do tempo do Salazar quando organizavam piqueniques sinfónicos e palestras doentias para conservarem as classes médias no activo da sonolência anti-fascista, sempre preparados para assumirem as rédeas do poder na eventualidade de algum golpe de estado cair do céu, como aliás acabou por acontecer de maneira muito original e estrondosa, com cravos, telefonemas de amores antigos entre Spinolas vitoriosos e Marcelos acagaçados, muita tropa cansada da guerra e muita cantiga alentejana a dizer que o povo é que encomendava mas que o fornecimento e qualidade não podiam ser garantidos devido ao papel utilizado nos embrulhos.

Na Europa dos anos 10 do século XXI, há jornalistas e jornalistas. E a ideia geral é que 70 por cento deles estão insatisfeitos com o estado da profissão que escolherem porque não podem dar largas àquilo que lhes vai nas cabeças em matéria de opinião. E se os jornalistas de Portugal são representados por aqueles que abriram a boca neste colóquio sobre blogues para dizer que um jornalista tem de ser independente senão ninguém acreditará na sua idoneidade profissional, então o melhor é irmos comprar um ramo de flores e depositá-lo na campa de Salazar e pedir-lhe muita desculpa.

Um conselho a esta gente da parte de alguém que não tem experiência jornalística, nem nunca foi submetido às pressões das escolas da informação para meninos que sonham tornar-se nos Walter Lipmans do futuro. Não há “independência” em Jornalismo e muito menos em jornais. Da mesma forma que não há independência em política, nem independência em religião, nem na Bolsa, nem na forma como se escreve um poema ou nas razões que levam a declarar guerra. Nem entre ditadores, tiranos, ou reis absolutos sempre aconselhados pelas eminências pardas. A imprensa “independente” é um mito. Se não houver nada nem ninguém no campo das ideias, das filosofias e dos ouros que interfira com a nossa racionalidade ou imparcialidade, háverá sempre, pelo menos, a honestidade a roubar-nos ou a reduzir-nos essa independência. E num mundo desonesto, a honestidade está sempre na oposição, que é uma forma de não sermos independentes se formos seus partidários. Got it?

Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

POBRE E MAL AGRADECIDO

Uma das constatações mais tristes que se oferecem diàriamente às pessoas lùcidamente preocupadas com o estado do Mundo é a de que esse Mundo, na essência, não mudou muito em termos de justiça social nos últimos, digamos, 2000 mil anos de História. Ou quatro mil, tanto faz, ou até mesmo nos seis mil e tantos que é a idade do planeta relatada na Biblia judaica dos povos eleitos. Por “justiça social” entenda-se, por conveniência e um certo respeito à aritmética: distribuição equitativa da riqueza resultante do trabalho. Mais ou menos segundo os critérios apregoados por socialistas que não gostam de comunistas que se dizem marxistas que odeiam anarquistas que se aliaram ou zangaram com sindicalistas que acabaram por arrumar as botas como força política, mas não antes de deixarem uma carta para as gerações vindouras para examinarem cuidadosamente o potencial do fundo de desemprego vir a ser utilizado como arma económica para abater o capitalismo. E digo “mais ou menos” em vez de “inteiramente” porque a esmagadora maioria já anda a tocar trombone, ou coisas com configurações ainda mais próximas da anatomia masculina, há cento e tantos anos e nunca reparou que tem andado a ser joguete de gente muito mais esperta que ela.

Mas retomando o tema da equidade que não existe, ocorre-me esta constação dum facto histórico inegável: Um mercador qualquer de utensílios de cobre, frutos secos, sal e tecidos finos das arábias chamado Marcus Espertus, digno cabecilha da firma Furtorium & Roubatorium, com sede numa cidade ribeirinha do Mediterrâneo desses tempos da História de andar de rastos e de dar vivas a imperadores romanos, com escravos e lacaios para o servirem e muitas vezes com um pequeno exército de apaniguados para o protegerem, tem, vejam só isto!, os seus correspondentes e equivalentes, e em número muito maior, em qualquer pais do mundo actual, industrializado ou não. Incluindo a República Centro Capristana. Malta dura de largar mão de coisas boas, esta gente rica. Como as religiões antigas, ou as profissões velhas de abrir as pernas.

E o que isto em suma revela sem precisarmos matar a cabeça é que, depois de muita conversa sobre evolução social, revoltas de escravos e servos da gleba, com a ajuda de ciências, alquimias, guerras entre religiões, quedas de impérios, invenções de nações, filosofias de interpretração das modas e costumes e muita revolução para levar a cabo essa evolução que todos esperávamos viesse contribuir com resultados mais rápidos para avanços em “justiça social”, ainda continuamos a aguentar com a mesma merda de diferenças acentuadas entre o creme to topo e o esterco da base. Mesma, se alguem não quizer usar o termo “pior”: de facto, a ricalhada da História clássica, suja nos métodos e brutal na maneira de ser como foi, nunca recorreu à violência subtil, de sofisticados rodeios, de nos conspurcar o espírito, controlar as nossas consciências e capacidade de raciocinar, como hoje se nota em sociedades modernas de parlamentarismos cobridores de ganâncias insaciáveis. Apesar de declarações em contrário escritas nos livros dos homens que dizem querer salvar(conversa fiada) este planeta a todo o custo, a verdade é que, na área do conforto e felicidade, o mundo regrediu, não em termos de 10 ou 20 anos mas em termos de 2.000 anos para muitos milhões de pessoas do terceiro mundo. Pense-se na África, quando se quizer provar este ponto. E pense-se no quadro de fome e miséria que o clube de países privilegiados tem sempre à mão para escarrapachar nos televisores e mostrar aos seus pobres, que também os tem com fartura, que há gente que ainda vive pior. Por isso, o êxito da filosofia de não querer repartir depende bastante da maneira como não se reparte. Manter a super-iniquidade limitada ou geogràficamente compartimentada é fundamental para a sobrevivência dos distribuidores de rações.

E esse forçar-nos a pensar duma certa maneira das sociedades modernas, cuidadosamente desenhada pelos especialistas ao serviço das oligarquias que se escondem por detrás de cofres e altares, tem como objectivo primário o de nos levar a acreditar que o nosso estllo de viver e de pensar é a manifestação de contentamento que resulta da usufruição de liberdades queridas conquistadas durante séculos de lutas gloriosas nos campos de batalha da evolução da humanidade. E quem não acreditar nisso, pergunte a um democrata velho que levou o nome botado numa rua da aldeia onde nasceu.

Para nos conservar contentes com o que temos e domesticada-mente desinquisitivos, um dos instrumentos mais utilizados pelo poder do ouro e da intriga para nos obrigar a considerar como natural a evolução de pé-coxinho da condição humana é, claro, o partido político.

O partido politico não é uma invenção velha, mas é interessante verificar a maneira como adoptou modos e atitudes de coisas mais antigas, como as religiões, por exemplo. Ou as cabalas que dantes não gostavam de Deus e de repente começaram a aceitar tudo o que viesse à rede para disfarçar origens e mistificar intentos. Pode haver explicações melhores que esta, mas os partidos politicos surgiram com o propósito de dar continuidade à intriga por outros meios, para evitar a perigosa ou ridícula confusão de mais guilhotinações de guilhotinadores como aconteceu na Revolução Francesa quando magotes de povo seguiam sem perguntas nem garantias o demagogo que conseguia gritar mais alto. As ligas de amigos, os grupos e grupinhos, as associações, as lojas e as pequenas panelas de fermentações do grande século das luzes nunca iluminaram aquilo que importava e que ainda hoje se anda a esconder - como o problema de se saber se a canção de querer servir o povo e a nação não passa de pura cantilena ao serviço dum amor de beijar os pés dum idolo qualquer que não é mencionado nem na história do país nem na memória dos militantes crédulos. Se essa gente dos partidos primeiros foi honesta e franca, as provas não abundam. Temos resultados, isso temos: 40 partidos numa nação de quartéis com
apenas dois a puxarem os cordéis.

Se a fome e iniquidade que grassa neste mundo não é da responsabilidade de partidos procuradores e governos procuratórios que já nos presentearam com pelo menos duas guerras grandes, cinco ou seis médias, e várias duzias de outras guerrazitas para quebrar a monotonia deste planeta que vive na escuridão, então de quem será? Ah, já sei: é do capitalismo e do imperialismo. Então quando tivermos provas vamos meter esses dois gajos na cadeia, como fizèmos ao “fascismo” depois do 25 de Abril, que é para eles aprenderem.
No entretanto, o nosso trabalho esforçado de cidadãos inocentes para continuarmos felizes a cagar opiniões sobre o mundo dos pobres e dos ricos, cantando e rindo com as explicações que o sistema nos providencia ou facilita, vai produzindo transpirações e cheiros desagradáveis. Suores craniais de culpas. Há, por isso, necessidade dum banho diário de revitalização mental que funcione como desodorizante ou bloqueador, dos quais o mais popular é talvez o de sentarmo-nos frente a um televisor e ouvir os relatos frescos das coisas permitidas. A alternativa matinal também resulta, podendo ser adquirida, em qualquer quiosque, na forma de jornal ou revista. Mas cuidado, alguns deixam nos dedos o pó preto das mentiras em decomposição com o perigo de entrada imediata na circulação... e morte instantânea. Por abuso.

Terça-feira, Dezembro 07, 2004

CONFIRMADO: CONTAS DE CABEÇA É PRIVILÉGIO DE GENTE RICA



Coitados dos filhos dos pobres mal-ensinados
Estão quase em barralhos entre muitas nações
Não sabem medir ou adir lados aos quadrados
Nem balancear os restos de injustas divisões

Que o ministro agora ou no futuro não vá dar
Mais uma desculpa do costume ou se esqueça
Que os pobrezinhos podem continuar a roubar
O resto que os ricos desviam usando a cabeça

Porque é isso que os ministros muito rascas
Fazem quando andam a somar dois com três
Umas vezes gastam dinheiro com pranascas
E o resto do tempo a encher o crú ao burguês

E não me venham com novas que os garotos
Não sabem a altura das mulheres em Portugal
Basta olhá-las um segundo com olhos devotos
E vê-se logo que devem ter aí um metro e tal

FECALIZAÇÃO DA RIMA DO BEIJO

As visões
E dramas pessoais
De poetas lusos
E outros animais
E as ideias
Sem usos
De politicos
Parecem planos
Raquiticos
De vultos
Ocultos
A rimar
Com não contar
Histórias
De perdas e danos
Perdidas em arenas
Pequenas
De circos marianos

As almas danadas
Dos segredos
Escondidos
Da cançao pateta
Oferecem ensejo
Ao poeta
De dar um beijo
Em traseiro
De conselheiro
De Estado Parado
Que não rima
Com peida
Nem com Eneida
Porque o som
Da corneta
Perjura
Anuncia o tom
Da nova ditadura

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

CONSPIRADORES E CONSPIRACIONISTAS

O rótulo muito na moda “teorias da conspiração” é uma imagem de ataque limitado discursivo inventada pelas brigadas mandrionas da anti-teoria conspiracionista para transformar vinagre em vinho. É palavra de gente má a espumar com raiva de desprezo e que sorri de lado para o papagaio que está acostumado ao encolher de ombros. É o objecto ferido a arreganhar os dentes ao sujeito. É a tentativa desesperada de usar a bala que dá curvas impossíveis e que irá acabar por ir ferir ou matar aquele que aponta o cano da arma nas costas do conspirador. É rir por fora e conspirar por dentro. É fugir a pagar indemnizações por crimes de desinformação.

Infelizmente, entre gente crédula, esta táctica do homem que julga ou finge que julga que este mundo é normal e não tem segredos assume a natureza líquida da sopa argumentativa que contenta pobres e remediados nos dias de fome em que não há futebol nem nada realmente interessante para se dizer em poliítica - que são, aliás, e também muito infelizmente, os dias normais dos homens da arenga profissional ideológica constantemente acagaçados pela incapacidade em encontrar maneiras airosas de sair das encrencas que criam ou de continuar a convencer as pessoas que a política é uma coisa democrática e bonita quando é feita com o patrocinio do Santo António da Pluralidade.

Notem este exemplo do tipo de argumento que recorre constantemente à personalidade do Diabo para provar a existência de Deus. Inclua-se como testemunha neste processo de verificação a insinuação propositada de que Deus e o Diabo nasceram em berços adjuntos, algo que poderá ser explicado com mais detalhe por gente que segue o espírito e doutrinas de certas cabalas. Nos tempos de Salazar, a palavra “subversão”, irmã orgulhosa da “revolta” e tia da “insubordinação”, vinha mais, ou tanto, à baila na edição diária de convencimento de pasquins que acudiam o governo do que a palavra “revolução” vinha nas páginas mensais do “Avante” que denunciavam o “fascismo” com uma regularidade inteiramente à mercê da eficácia da Pide em localizar as suas tipografias ambulantes. Salazar ia matando o sonho da “revolução” com doses bem medidas da irmã endiabrada da mesma família chamada “subversão”.

Há exemplos desses até na medicina: antibióticos e vacinas, onde curar é uma maneira de matar ou pensar que se vai curar. Em homeopatia a expressão “Similia Similibus Curantur”, “curar o mesmo com (aquilo que causa) o mesmo”, é outro exemplo notável. Mas há mais se quizermos viajar pelo reino das matemáticas ou lembrar-nos da famosa teoria dos contrários tão querida dos navegadores de esquerda. E disto à ilusão de que todas as coisas que parecem iguais não o serem é um salto que apenas requer um pouco de boa vontade Não que esse jeito dos jornalistas a soldo de Salazar e escravos do chavão viesse contar a ninguém aquilo que realmente se passava nos corredores da politica da palhaçada anti-fascista, que era exactamente a mesma palhaçada das confrontações entre a esquerda e direita de todos os lados, especialmente na Europa.

Assim, quando um representante lusitano de direitas ditas desfascizadas ou de esquerdas tortas ditas endireitadas – umas e outras copiando as modas, com menor ou maior entusiasmo, de ideias uníssonas que cantam as filosofias da nova ordem do homem pre-fabricado – classifica, com desprezo e intenção de ridicularizar, todas as opiniões que vêm virar de pantanas os dogmas que o fizeram andar de mãos postas muito anos, ninguém tem o dever de se admirar. Esta reacção à investigação de gente que tenta desenlear a meada é o equivalente moderno da atitude dos barões-ministros das sociedades rascas do passado, que preferiam, nesses tempos de grande ignorânca, despedir as ideias dos sesus oponentes com um simples “isso são coisas do Arco-da-Velha”.

Conspirador, conspiracionista ou escravo da indiferença?

Há pelo menos dois tipos de homem que não acreditam em teorias da conspiração. Para já, nenhum deles presta para conversas animadas à volta dum copo de cerveja num dia em que não haja futebol, porque muito provàvelemente tudo revolverá à volta de preços de coisas que não estão ao alcance da maioria. Um é aquele que não quer pensar em coisas que poderão envolver o ter de aceitar lógicas contrárias às crenças de partidos novos ou velhos ou a renunciar àquilo que foi escarrapachado no canudo que lhe deram antes de o mandarem à vida com uma carta de recomendação; outro é o que acredita no progresso da humanidade porque parece bem e não é contrário aos princípios da esquerda ou da direita, além de que essa forma de pensar desliza precisamente à mesma velocidade do movimento perpétuo não sujeito a atracções ou gravidades que lhe foi imprimido com um pontapé levado no cú numa situação de vácuo absoluto há muitos anos atrás. Ambos são personificações actualizadas e melhoradas do reaccionário antigo condenado às grilhetas eternas do não-querer-saber-por-conveniência-e-permanecer-ignorante.