Portugal Corner

Sábado, Novembro 27, 2004

ABRIL ÁGUAS-MIL

Dizer que Abril esticou o rebelde pernil
E que agora é galo com andar de polho
Não é o mesmo que dizer que águas-mil
Caiem do céu mas não do canto do olho


Dizer que as voltas da vida esquerda-direita
São só sarabandas vèlhinhas do vai e do vem
É o mesmo que dizer que liberdade desfeita
Raramente tem a ver com a fome que se tem


Dizer que a verdade é agridoce no seu canto
Sem guitarra nem lamúria falsa de agradar,
É cantar um fado que não convida ao pranto
Porque pranto é uma forma fingida de chorar


OILY LAND

Mother,
Don’t bother
Telling the boys
About the ploys
Of London Bridge
Falling down,
Falling down
On the bloody waters
Of the Tigris.
Anyway,
Babylonia
Is faraway,
The bombs
Ninety percent
USA,
And I care
Not
About
The plot.

Quinta-feira, Novembro 25, 2004

HISTÓRIA DOS COSTUMES DAS PÁTRIAS

Cá para mim, não há coisa melhor que uma História bem narrada, sem censura ou mordaça, cheia de lances arrebatadores e altos e baixos que brincam com os nervos da excitação do prazer ou do aprender a sofrer vertendo a lágrima que não pode ser evitada; história cheia de coisas imprevistas, fins bonitos, dramáticos e trágicos, explicações que parecem normais e próprias das velhas modas que não voltam mais. Histórias da História, também, com inicial maiúscula, de lendas, relatos romanceados recheados de sátiras ligeiras ou mordazes, ou medrosas de ofender o rei ou senhor do dia; sou apreciador de críticas antigas pescadas nos modos e mentalidades das pessoas descontentes em épocas já idas, nos tempos em que se coziam feijões ou papas sem natas porque não havia batatas, e se ofereciam almas, se pagavam tributos, impostos impostos à gente pequena; histórias de ricos de espada à cinta e feitos valorosos, e de pobres vestidos de serapilheira, de padres e monges de caras cobertas, templos, doenças, pragas, pestes e festas; histórias de ir com Deus e contra Deus, de fogueiras de queimar em nome da Fé, ou de dizer que se queimou, de navegar a nau no salso mar sem esperança de voltar; de viagens de descobrir, de sofrer, conquistar e desaparecer. Histórias disto e daquilo que ficou rezado com a ajuda e cumplicidade dos muito poucos que sabiam escrever; histórias daquilo que nos têm contado e que temos engolido ou aprendido com orgulho; histórias que se vão contando, que passaram de boca em boca, de pai para filho, de geração para geração, de bandarra para bandarra, de historiador para historiador, de copista para copista. Histórias das muitas torres dos tombos que há muito andamos a dar neste mundo em que a gente acredita, que nos falam da maneira como os homens foram ensinados a olhar para os astros no teto do céu e dos todo-poderosos que criaram nacionalidades com peitos de brios para benefício daqueles que vão vindo e andando e morrendo em direcção ao futuro, continuando a eterna vénia de respeito ao passado que faz inchar de certeza, e encolher com medo de duvidar, as ralés que já sabem ler e escrever.

Mas histórias são coisas onde a incredibilidade aumenta com a idade. Contem-me uma história dum facto de ontem e revelem-me o sebo da mentira deliberada a brilhar na parangona e a luzir na letra miudinha. E se isto é agora, numa era onde a informação viaja quase à velocidade da luz, pense-se no que seria há quatrocentos e quinhentos anos atrás, quando também havia necessidade de esconder alguma coisa que era preciso que não se soubesse...

E se é certo que não há razão nenhuma para ver aviso disfarçado em Fernão Lopes: "o homem que escreve sobre o que não sabe, ou conta menos que aquilo que se passou, ou conta mais do que deve" - também é certo que não há prova nenhuma de que ele alguma vez tivesse escrito essas palavras, ou outras palavras nesse sentido.

Os futuros historiadores do verdadeiro “rigor científico” que todos precisamos para ler histórias com prazer têm muitas contas de cabeça a fazer para descobrir onde é que foram parar trezentos anos, ou mais, de História que desapareceram do mapa, e ganhar um novo espírito inquisitivo que não os previna de não achar estranho que a maior parte das histórias antigas que nos contam se basearem em tomos cuja velhice não parece ir além do século XVI. Busca: “Fomenko History, Chronology”, para uma opinião realmente abalizada dos coveiros da História ultrapassada..

Quarta-feira, Novembro 24, 2004

VIRA E VOMITORIUM

As notas, que são os dólares, os euros, e as libras
São as coisas que fazem escorrer a tinta das penas
E as penas são donzelas doidas a cantar cantigas
Que dão volta às cabecinhas das gentes serenas

Porque o vício de condenar os diabos do presente
Assenta no embalar de que há sempre esperança.
Mas a verdade é que o mundo anda fraco e doente
Porque não vomita as verdades que tem na pança

E quem não quizer ver o problema desta maneira
Esqueça o jeito choramingoso da guitarra e lira
E verá que quando passamos o mundo à fieira
A dança que menos se dançou foi a dança do vira


Terça-feira, Novembro 23, 2004

APERI OCULOS

“Aperi oculos!” (“Abre os olhos!”) – em latim para não ofender muito e para dar um arzinho de sabermos daquilo que estamos a escrever - é um convite dirigido às almas crédulas para descerrarem as pálpebras e enfrentarem com coragem a realidade das moscas volantes e das vertigens provocadas pelo carrossel politico; um convite não-específico mas muito sério que apenas ousa sugerir que há indicios fortes de que anda por aí muita gente triste e enganada a banhar-se no mar da ilusão.

Coisa quase vergonhosa, diga-se de passagem, esta de portugueses de densidades encefálicas variáveis andarem iludidos nestes tempos da Internet com tesouros de informação à espera de serem descobertos. Até na língua da nossa América brasileira. Em vez disso, os manos mais ocidentais da Europa besuntam-se uns aos outros com óleos antigos que prorrogam as liças que animam as missas. Num mundo onde as respostas e soluções não conseguem dar escoamento aos problemas que se amontoam e que entravam a capacidade de ver, a palavra ILUSÃO, rapariga inocente e confiada que não vê maldade em abrir as pernas, vai ter de ser promovida a vocábulo de três estrelas da lingua portuguesa e a partir de agora, por decreto do autor destas linhas, passará também a ser definida como “conjunto de elementos crus de ignorância trabalhados com rigor de experiência de séculos no corpo da obra artística do convencimento”. Por outras palavras: a ILUSÃO é barro que vai produzindo cada vez mais nas mãos dos modeladores intriguistas com gravatas de seda e aventais de cetim enfeitados com simbolos de mistério que roçam lùbricamente as áreas do baixo-ventre ...

A ILUSÃO politica tem, sempre teve, uma família enorme, porque o pai nunca quiz abdicar da potência do grande martelo liberal e a mãe foi sempre mais fértil que uma rata bíblica. É gémea do asinismo, que tem um feitio diferente, mais galdério, estouvado e sempre aberto a palavras de ordem com acento tónico na pátria escorregadia. Uma espécie de Lusus Naturae, esse moço que também parece condenado a nunca mais ganhar juizo.

(Vai haver mais disto....)