Cá para mim, não há coisa melhor que uma História bem narrada, sem censura ou mordaça, cheia de lances arrebatadores e altos e baixos que brincam com os nervos da excitação do prazer ou do aprender a sofrer vertendo a lágrima que não pode ser evitada; história cheia de coisas imprevistas, fins bonitos, dramáticos e trágicos, explicações que parecem normais e próprias das velhas modas que não voltam mais. Histórias da História, também, com inicial maiúscula, de lendas, relatos romanceados recheados de sátiras ligeiras ou mordazes, ou medrosas de ofender o rei ou senhor do dia; sou apreciador de críticas antigas pescadas nos modos e mentalidades das pessoas descontentes em épocas já idas, nos tempos em que se coziam feijões ou papas sem natas porque não havia batatas, e se ofereciam almas, se pagavam tributos, impostos impostos à gente pequena; histórias de ricos de espada à cinta e feitos valorosos, e de pobres vestidos de serapilheira, de padres e monges de caras cobertas, templos, doenças, pragas, pestes e festas; histórias de ir com Deus e contra Deus, de fogueiras de queimar em nome da Fé, ou de dizer que se queimou, de navegar a nau no salso mar sem esperança de voltar; de viagens de descobrir, de sofrer, conquistar e desaparecer. Histórias disto e daquilo que ficou rezado com a ajuda e cumplicidade dos muito poucos que sabiam escrever; histórias daquilo que nos têm contado e que temos engolido ou aprendido com orgulho; histórias que se vão contando, que passaram de boca em boca, de pai para filho, de geração para geração, de bandarra para bandarra, de historiador para historiador, de copista para copista. Histórias das muitas torres dos tombos que há muito andamos a dar neste mundo em que a gente acredita, que nos falam da maneira como os homens foram ensinados a olhar para os astros no teto do céu e dos todo-poderosos que criaram nacionalidades com peitos de brios para benefício daqueles que vão vindo e andando e morrendo em direcção ao futuro, continuando a eterna vénia de respeito ao passado que faz inchar de certeza, e encolher com medo de duvidar, as ralés que já sabem ler e escrever.
Mas histórias são coisas onde a incredibilidade aumenta com a idade. Contem-me uma história dum facto de ontem e revelem-me o sebo da mentira deliberada a brilhar na parangona e a luzir na letra miudinha. E se isto é agora, numa era onde a informação viaja quase à velocidade da luz, pense-se no que seria há quatrocentos e quinhentos anos atrás, quando também havia necessidade de esconder alguma coisa que era preciso que não se soubesse...
E se é certo que não há razão nenhuma para ver aviso disfarçado em Fernão Lopes: "o homem que escreve sobre o que não sabe, ou conta menos que aquilo que se passou, ou conta mais do que deve" - também é certo que não há prova nenhuma de que ele alguma vez tivesse escrito essas palavras, ou outras palavras nesse sentido.
Os futuros historiadores do verdadeiro “rigor científico” que todos precisamos para ler histórias com prazer têm muitas contas de cabeça a fazer para descobrir onde é que foram parar trezentos anos, ou mais, de História que desapareceram do mapa, e ganhar um novo espírito inquisitivo que não os previna de não achar estranho que a maior parte das histórias antigas que nos contam se basearem em tomos cuja velhice não parece ir além do século XVI. Busca: “Fomenko History, Chronology”, para uma opinião realmente abalizada dos coveiros da História ultrapassada..