O meu primo Fernando, que trabalha nos escritórios duma empresa de comercialização de rendas falsas e peitilhos postiços, com uma lista de clientes espalhados por toda a Europa vomitadora, telefonou-me hoje para Londres para me dizer que as coisas estão a ficar pretas ou, pelo menos, da côr do alcatrão, para os fumadores de Portugal. Segundo ele, o Governo está quase a dar à luz um decreto que vem criar uma situação em que toda a gente tem direito apanhar cancro através do cigarrinho, sim senhor, mas só em casa ou no jardim. Ou então mete-se num combóio para as Caldas e fuma vinte maços de cigarros, pois parece que os viajantes de longa distância estão imunes contra os malefícios do fumo. Planos para urinóis com bocais à altura da cabeça para despejo de hálitos atabacados e passeios públicos com faixas da largura dum pulmão e velocidades mínimas obrigatórias de 20 quilómetros à hora para fumadores estão a ser devidamente considerados pelas autoridades do pelouro sanitário. Mas isto ainda é segredo. Desgraça das desgraças! - lamentou-se o meu primo.
E tinha razão, "O Público," um jornal que é destinado a uma minoria pública que não gosta da palavra povo porque faz lembrar má educação e cheiro a suor, também fala disso. E conta tudo. Quer dizer, quase tudo. Que raio! Pelo menos podiam perder cinco minutos e escrever uma opiniãozinha radical informando-nos que nos tempos áureos de Salazar os bifes eram caros mas que, por outro lado, só uma em cada mil mulheres fumava durante a gravidez e que no tempo do D. Carlos, nem se fala. Era só um arzinho desse tipo que estavamaos à espera. Ou então apresentar provas concludentíssimas de que o tabaco provoca todos os males que tem fama de provocar. Mas não, com a ajuda do JN e duma rapariga chamada Lusa, passam para consumo da gentalha a mesma água de malvas do costume benzida pelos tecnocratas de Bruxelas que querem desviar a atenção do tal "público-povo" dos grandes malefícios contidos em muitos outros produtos de consumo, incluindo, e principalmente, produtos alimentares.
Mas o que é que a gente há-de fazer? Hoje o tabaco, ontem os setenta e seis medicamentos que os potentados farmaceuticos tiveram a doce bondade de baixar no preço. Tira o cigarro da boca de esquálidos dentes castanhos e engole-me esses comprimidos encarnadinhos num lado e verdes do outro! Não admira: os lucros são tão grandes que até se podem dar ao luxo de vender de acordo com as capacidades dos bolsos, e às vezes nem desse pretexto precisam. Tamoxifin, um medicamento utilizado no tratamento do cancro do seio, pode custar cinco ou seis vezes menos no Canadá que nos EUA. Mas o pior não é a anarquia, o free for all, praticada pelas grandes bruxas da pílula do engodo. O pior é o acostumar o corpo à beberagem quotidiana de medicamentos que contêm na sua própria substância o poder para desencadear as doenças que se propôem combater. E é nesse campo que importa lembrar que o chamado "tabagismo" apregoado pelas ludovinas médicas não tem, por conveniência de cabalas, correspondente nas suas preocupações quando vem à baila a dependência em relação aos produtos da Big Pharma. Os venenos contidos no tabaco, a maior parte deles substâncias artificiais introduzidas por produtores que não são impedidos dessa prática, deveriam com justiça ser motivo de preocupação por parte de fumadores e não fumadores. Mas num mundo onde se obrigam tantos milhões de pessoas, incluindo grande parte da população dos EUA, a beber água quimicamente "equilibrada" para "proteger" os dentes das criancinhas com as consequências brutais que os anti-tabaquistas não gostam de ler em jornais, ou discutir, talvez fosse interessante saber onde é que irá acabar esta grande jornada politica do "tabagismo passivo" que já viu um cão quereloso a queixar-se de tosse convulsa a um juiz da grande América do estandarte anti-fumador... Será que eles andam a fazer isto tudo porque pensam que a malta que fuma como nós tem tendência a portar-se menos como ludovinas? (dá-me aí lume, pá, antes que a patrulha da polícia robótica das nações simiescas cheguem).