ILUMINAÇÃO PÚBLICA
Se houvesse mais dez ou vinte pirilampos como este
Na lusa terra que gosta tanto de comer como de falar,
Podia haver fomes, podia haver males e muita peste
Mas noites negras – tá quieto!, só as teriamos de luar
Se houvesse mais dez ou vinte pirilampos como este
Na lusa terra que gosta tanto de comer como de falar,
Podia haver fomes, podia haver males e muita peste
Mas noites negras – tá quieto!, só as teriamos de luar
Não há nada mais triste que chorar com razão
Nem nada mais alegre que rir ao ponto de chorar
Nem nada mais perto da morte que um caixão
Nem nada mais urgente que a vontade de obrar
Ainda ensonado, abro a porta e deixo entrar o ar.
Encho o pulmão da esquerda e deixo o direito falar.
Olho as terras dos outros que ainda me falta lavrar
E penso nas voltinhas dadas nos tempos de Salazar
E depois olho o sol que parece querer rebentar,
E ouço um cão ao longe que não pára de ladrar
E minha mulher na cozinha, afanosa a dar e dar
E o cacarejo de galinhas em sessão parlamentar
E enquanto lá dentro ela usa sais de queimar,
Esta minha mioleira não quer parar de pensar
Na vida desgraçada que agora levo a foçar
E na outra cem vezes pior que levei a sonhar
E lembro filmes antigos que não paro de rodar,
De guardas republicanos em alentejos de ceifar
E de obras-primas a preto em paredes de gritar
Morras e vivas parecidos ou iguais no paladar
E vejo as caldeiradas, as eleições de não votar
E os manifestos, protestos com bandas de tocar
Palavras secretas de padres do avesso a enganar
O pobre não lido e o rico ocupado com roubar
E já sentado no poial que o cú me está a esfriar
E o sol já bem alto a dizer-me para não chorar,
Oiço a voz da Fernanda toda irritada a bradar:
“Óh menino, então hoje não se vai trabalhar?”
Dá-me um carnaval
Dá-me pão e dá-me sal,
Farinha minha,
Dá-me a pele dum animal
Para me cobrir.
Dá-me uma bofetada
Na máscara
De dormir.
Dá-me ruídos
Papelinhos coloridos,
Serpentinas, buzinas,
Lindas ludovinas.
Dá-me um arlequim,
De Veneza, com certeza,
Dá-me um camião
Com flores
Pintadas à mão,
Tambores
Da África das dores.
Dá-me amores,
Dá-me uma pitada
Da branca coca
Do Rio carioca
De Portugal
De Abril
Que descobriu
O Brasil
Doente
Noutro poente.
Eu pecador,
Me confesso
À malta sã do costume
Que isto, o lume,
Não é nada.
Que é tudo confusão
Que eles não são maus
São só o que são.
Eu pecador
Me confesso
Senhor violador
Da injusta
Regulamentação
De não se poder
Dizer não.
Eu pecador,
Me confesso
Perdido no espaço
Não cartografado
Do rio não cruzado
Por nós
Em tempo de raiva
Quando sós.
Eu pecador,
Nunca confessor
De coisas ditas
Em segredo
Nunca revelador
De jurado medo
Venho confessar
Afinal
Que o que fiz
Não foi por mal.