Portugal Corner

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

ILUMINAÇÃO PÚBLICA

Se houvesse mais dez ou vinte pirilampos como este
Na lusa terra que gosta tanto de comer como de falar,
Podia haver fomes, podia haver males e muita peste
Mas noites negras – tá quieto!, só as teriamos de luar

CÚMULOS E MÁXIMAS

Não há nada mais triste que chorar com razão
Nem nada mais alegre que rir ao ponto de chorar
Nem nada mais perto da morte que um caixão

Nem nada mais urgente que a vontade de obrar

USO E ABUSO DO AR

Ainda ensonado, abro a porta e deixo entrar o ar.
Encho o pulmão da esquerda e deixo o direito falar.
Olho as terras dos outros que ainda me falta lavrar
E penso nas voltinhas dadas nos tempos de Salazar

E depois olho o sol que parece querer rebentar,
E ouço um cão ao longe que não pára de ladrar
E minha mulher na cozinha, afanosa a dar e dar
E o cacarejo de galinhas em sessão parlamentar

E enquanto lá dentro ela usa sais de queimar,
Esta minha mioleira não quer parar de pensar
Na vida desgraçada que agora levo a foçar
E na outra cem vezes pior que levei a sonhar

E lembro filmes antigos que não paro de rodar,
De guardas republicanos em alentejos de ceifar
E de obras-primas a preto em paredes de gritar
Morras e vivas parecidos ou iguais no paladar

E vejo as caldeiradas, as eleições de não votar
E os manifestos, protestos com bandas de tocar
Palavras secretas de padres do avesso a enganar
O pobre não lido e o rico ocupado com roubar

E já sentado no poial que o cú me está a esfriar
E o sol já bem alto a dizer-me para não chorar,
Oiço a voz da Fernanda toda irritada a bradar:
“Óh menino, então hoje não se vai trabalhar
?”

domingo, janeiro 30, 2005

PRECE CARNAVALESCA

Dá-me um carnaval
Dá-me pão e dá-me sal,
Farinha minha,
Dá-me a pele dum animal
Para me cobrir.
Dá-me uma bofetada
Na máscara
De dormir.
Dá-me ruídos
Papelinhos coloridos,
Serpentinas, buzinas,
Lindas ludovinas.
Dá-me um arlequim,
De Veneza, com certeza,
Dá-me um camião
Com flores
Pintadas à mão,
Tambores
Da África das dores.
Dá-me amores,
Dá-me uma pitada
Da branca coca
Do Rio carioca
De Portugal
De Abril
Que descobriu
O Brasil
Doente
Noutro poente.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

OLARILA!, SENHOR DOUTOR

Explicação à Catarina, no BdE (Rev.).
Apraz-me saber que és mulher prática preparada para dar as tuas voltas e resolveres os teus problemas de mãe. Mas não podes descurar essa “dependência” que tem vindo a acentuar-se, em relação aos médicos. Há as vacinas, as papinhas especiais, as alergias, as doencinhas congénitas, etc. etc. O amor maternal é, claro, mais importante que o resto. Mas, como sabes, quando um bebé dá um espirro ou dois a tendência das mães é correrem sobressaltadas ao sr. doutor. Não que eu tenha nada contra eles no aspecto religioso (?) porque há pessoas profissionalmente competentes e de bom coração em todas as profissões. Além disso, os médicos não seriam tanto o que são se a indústria farmacêutica não fosse o que é. Mas repara na minha experiência pessoal. Ai por volta de 1971, em Portugal, três deles quase que mataram a única filha que tenho com doses repetidas de anti-bióticos diferentes para curar uma “papeira” que no fim verificou-se ser um caso de coli bacilo. O quarto médico, que descobriu a doença, disse que não sabia se a poderia salvar depois de olhar aos resultados duma análise ao sangue. Mas tivemos sorte. Aí uns dois anos depois disso, em Londres, a minha mulher teve uma gravidez tubária. Caíu-me um dia nos braços. Levei-a ao hospital de carro e foi forçada a caminhar mais de cem metros para uma sala de observações e vinte minutos depois disso estava a ser operada de urgência, senão morria. Mesmo assim, dois anos depois engravidou, mas teve hemorragias no princípio da gravidez. O médico que a viu diagnosticou aborto expontâneo e passou-lhe um papelinho para se apresentar na manhã seguinte no hospital, para “limpeza”. O feto condenado por esse médico ignorante está à espera dum herdeiro em Junho que vem. Quando este meu filho tinha dois anos e meio, começou com dificuldades respiratórias e levámo-lo imediatamente a um “teaching hospital” em Londres. Diagnóstico: constipaçãozinha. Remédio: xarope. Nessa mesmo dia, de nossa iniciativa porque preocupados, fomos a outro hospital e foi imediatamente posto a soro de hidrocortizona com a informação de que se não tivéssemos lá ido teria morrido nessa noite. Asma. Depois andou vários anos a tomar um veneno chamado Intal, cortesia dos médicos que comem tudo o que a BigPharma lhes põe nas mãos. Nice people. Mas há mais. Ai por volta de 1987, comecei com uma dor no joelho. Diagnóstico: menisco. Seguido de operação desnecessária porque ainda fiquei pior. Uma visita a uma biblioteca médica e a leitura apressada de alguns livros sobre problemas de joelhos prepararam-me para eu próprio diagnosticar a doença (reflex symphatetic distrophy) que apresentei ao chefe de fila do departamento de ortopedia que, quinze dias depois se sentiu com coragem para me dizer: “You are right Mr, Filipe.” Este senhor era, na altura, considerado a eminência nacional de problemas do joelho. E fui eu também que me mediquei. Seguiu-se um caso de tribunal para me forçar a pagar a operação desnecessária e ganhei. Mais recentemente, um idiota de urologia achou-se com coragem para me dizer que eu tinha uma doença terrivel na bexiga, baseando-se apenas em resultados preliminares dum “ultra-som”. Não o mandei à trampa nessa altura, mas, depois de alguma reflexão, escrevi um carta aos serviços de saúde no dia seguinte a chamá-lo de labrego. Espero não vir a arrepender-me disso. Ainda mais recentemente - e aqui é que há razão para se falar de fascismo da medicina - a minha filha foi retirada da lista duma clínica por ter, julgo, recusado que a minha neta mais nova fosse submetida a quaisquer tipos de vacina. Mas esta é uma história ainda mais longa. E se um dia te cruzares comigo numa praia algarvia e veres sinais de cesariana na minha barriga, já sabes que foram médicos que a fizeram há trinta anos para meterem a cabeça e ver o que era que andava a dar-me dores de barriga e febres de 41 graus. Apendicite crónica. Olarila!

terça-feira, janeiro 25, 2005

ABORTO PROGRESSIVO

Paulatinamente, o LP vai revelando-se herdeiro adequado do espólio polémico deixado pelo testador LR. Desta vez, há aborto com fartura que vem antes duma sugestão de entrée de parcialidade na condenação de coisas que tiveram a ver com sexo e escândalo, e lá mais para a frente, talvez amanhã ou depois, virá, aposto, outra coisa qualquer, para desenjoar.

Essa de criticar americanos e poupar europeus é de partir a moca. Quer dizer, é mas só quando nunca ouvimos falar de gringos que se andam a queixar de que os USA são um porta-aviões a serviço da Europa. E também me faz lembrar com muita tristeza uma história que corria em Paris nos anos sessenta sobre um membro do comité central do único partido de esquerda português na altura, que mandava um camarada menos responsável ir fazer recados a Marselha, e depois, muito conspirativamente, ia deitar-se com a mulher deliciosa que o outro tinha deixado na cama. Estranho. Mas histórias como esta há muitas, envolvendo a esquerda, a direita e especialmente o cobiçado centro..

Mas o que é que quase me ia fazendo irar atrás da banda numa desbunda à volta dum desbate? Foi por ver que há gente demais a coçar o pelo ao pobre Louçã, um dirigente do BE que teve a bravura de não respeitar as agendas, de ser sincero, de não obedecer aos sussurros que o aconselham a olhar pelo tacho. Um homem de esquerda politicamente incorrecto, para variar. E, já agora, também porque é contra os meus princípios esconder uma opinião que pode ajudar alguém desmoralizado, apesar de que sei que ele sabe defender-se.

Assim, aquilo que tenho a dizer aos detractores que andam por aí a pensar que o Louçã disse o que não deveria é isto: o favorecimento do aborto, como instrumento de mobilização dos ânimos políticos em novas batalhas de fingir, é mais ataque á Igreja que intenção progressista e sincera de defender a Mulher contra ideias retrógradas. Nem sequer me vou dar ao trabalho de admitir que posso estar enganado. É pena que a infantaria da fé marxiana, concentrada, diluida ou reformada, não veja isso. Já era assim no tempo de Salazar - o tal que tinha um Cerejeira amigo e enfrentava uma oposição que nunca revelou o nome do seu próprio cerejeira - e será assim nos anos que restam a esta senhora pluralista que ainda não entrou no climactério. E queria dizer também a esses senhores detractores que há, não tenho dúvida, mais reaccionarismo - não necessàriamente do tipo que consta nos catecismos - entre os generais das ideias do aborto descontrolado do que nos seus opositores, muito embora os motivos destes se devam a crenças religiosas que não nos convencem.

Um dos grande defeitos da esquerda que quer salvar nação e paróquia das garras do obscurantismo anti-mulher é o de pensarem que a “direita”, normalmente de braço dado à Igreja, está sempre enganada nesta área. Verdade, o direito ao aborto pode ser defendido por mulheres que não querem ter preocupações quando descem ligas ou saias, porque confundem isso com liberdades que às vezes duram menos de cinco minutos. Mas, a longo prazo, há um preço a pagar pela Mulher em tudo isto: o preço dessa mulher se deixar levar insconscientemente no bailarico da modernidade tão necessário ao plano daqueles que receiam um mundo onde cada vez há mais gente. Se alguém duvida disto, dê uma olhadela à antiga União Soviética cheia de decretos liberadores da mulher, e pergunte-se se não é muito estranho que liberdades como essa do aborto tenham podido coexistir com os gulagos que toda a gente inclui com prazer em ataques demolidores ao comunismo agora “desacreditado”.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

PALAVRAS CONFUSAS...

Caro camarada insaftisfeito...
Ok, já que me convidas a continuar esta discussão em privado, aqui tens a minha concordância, e numa linguagem que não pretende melhorar estilos nem usá-los para melhor vender as minhas ideias ou provar os meus pontos de vista, uma coisa em que aparentemente pareces investir e acreditar. Nota, no entanto, que os grandes estilistas duma língua nem sempre os que defenderam as barricadas que se ergueram para combater formas de opressão e ignorância. E de mentira.Mas deixa-me começar pelo princípio do teu post, na convicção de que não estarei a utilizar as doses de fanatismo que animam a maior parte de gente que milita em partidos ou abraça filosofias independentes de liberalismos democráticos. Primeiro: não acredito, como tu pareces acreditar, que todos os partidos estão “esclesorados” (sic). Há aqui um fosso tremendo entre as nossas opiniões (ou convicções) a este respeito. Tu vês apodrecimento natural que resulta da falta de visão da parte daqueles que criticas, eu vejo plano e intriga que escapa ao poder de detecção de membros de partidos e da maior parte das chefias dos mesmos. Tu és um intelectual que lamentas o “esboroamento dum legado intelecctual e vivencial” nesse rincão e eu sou um simples cidadão deste mundo que acha que Portugal é muito pequeno para explicar o que de opressivo vai por esse mundo fora. Em vez do teu “esclerosados” escolheria “manipulados” ou “assimilados” , ou “arregimentados”, se me perguntasses. O apodrecimento ou entupimento político pode ser acelerado por processo artificial. Ou tu ainda andas, ou vives, agarrado à ingénua crença de que “comunismo” deu o peido na União Soviética porque andava “esclerosado”?Tu não focaste apenas o PC no teu post incial. Tu, ressalvando aquilo de decente que ainda dizes restar no BE, abriste os braços e deste um murro no martelo desenfoiçado e outro na cruz. Um gesto talvez impensado ou acidental, mas muito próprio de alguém que milita em certas irmandades que sabem mais de política que aquilo que tu andas a querer ensinar de politica aos que te lêm . Segundo: a linguagem e o pensamento, ao contrário do que tu dizes, SÃO dissociáveis pelo menos quando não há honestidade. É essa dissociação, não o negues, que provoca muitas vezes as tuas críticas, que são, de certo modo, o queixume do povo com palavras escolhidas a dedo. Para quem é tu achas que o Maquiável andou a escrever o Principe? Para aqueles com moral para aceitar que “a linguagem é a manifestação do pensamento”. Por favor.Terceiro: a expressão linguística de que falas nunca me seduziu, porque não tenho ambições políticas nem literárias. Estou velho demais para isso e se calhar nunco fui suficientemente novo.Deixo isso aos puristas como tu. Podes ficar com a honra, com o proveito e a fama porque não alterarás o facto irremediável de andares a esbracejar numa língua que tem tanta importância para o resto do mundo como a política do pais. A menos que escrevas para aí outro “alquimista” que caia no goto das pessoas. Alem disso, o que é que a verdade, que é o que me interessa, tem a ver com os meneios voluptuosos da escrita? Mesmo numa idade destas, prefiro orgasmos clássicos, acredita.Quarto: Confuso por te dizer que não usas um pouco de intuição política, e que quando a usares talvez consigas tornar as tuas análises políticas mais convincentes? Deixa-me dar-te uma ideia simples de intuição política que passa despercebida a muita instruída como tu: 40 por cento de eleitores, por exemplo, a remoerem em silêncio “isto é tudo a mesma merda” em altura de eleições.Intuição política é também o que se usa quando tentamos saber porque que diacho é que dois maçons (Napoleão e Wellington) andaram à cabeçada um com o outro. Queres exemplos mais modernos? Imperialismos, yeah? My f..... foot.Parece que não aceitaste a minha desculpa por ter insinuado que o outro fulano eras tu. Na minha segunda comunicação, não me lembro de ter reiterado isso nem sequer veladamente. Mas já que voltas à carga, talvez não de importes de revelar o teu nome completo ou verdadeiro. V.... não me diz nada. Parece nome de de malabarista ou mágico. Se me rogares uma praga, rogo-te, roga-me uma branca. O meu nome é o que sabes. Não pertenço a nenhum partido (já pertenci) mas não me admiraria que no final disto tudo se viesse a estabelecer que tenho mais experiência do que tu na arte de desafivelar as máscaras dos outros. Sabes que o que é que alguem como eu fazia quando vivia em Lisboa e tinha umas corôas a mais, numa semana boa? Ia jantar a restaurantes burguêses e comia com as mãos só para chocá-los. Desculpa o “estilo” aberto e franco. Pode não convencer gente como tu destinada ao Olimpo da Buraca, mas é que o que se pode arranjar, filho. Nem me vou dar ao trabalho rever o que escrevi por aí acima. Quem as comer (as asneiras ortogramaticas, de estilo e de opinião) que as lave...

terça-feira, janeiro 18, 2005

EU PECADOR....

Eu pecador,
Me confesso
À malta sã do costume
Que isto, o lume,
Não é nada.
Que é tudo confusão
Que eles não são maus
São só o que são.
Eu pecador
Me confesso
Senhor violador
Da injusta
Regulamentação
De não se poder
Dizer não.
Eu pecador,
Me confesso
Perdido no espaço
Não cartografado
Do rio não cruzado
Por nós
Em tempo de raiva
Quando sós.
Eu pecador,
Nunca confessor
De coisas ditas
Em segredo
Nunca revelador
De jurado medo
Venho confessar
Afinal
Que o que fiz
Não foi por mal.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

SOBRE A ORIGEM DA BOLA DO MUNDO

A Terra é uma esfera chata mas interessante
Cuja criação não se sabe como é que foi bolada
Uns dizem ser obra divina ou de ser possante
E outros que foi energia que apareceu do nada

Os defensores dessas duas afamadas teorias,
Às vezes de batas brancas e outras de pretas togas,
Ora discursam em velhas e preclaras academias
Ora dizem mantras indianas em igrejas-sinagogas

E como nestas coisas sabe bem haver fartura,
Que é quando há falta de saber por todo o lado,
Temos o ateu doente a gritar que não quer cura
E o agnóstico "saudável"a pensar que está curado